GENÉTICA DE CRIAÇÃO

Meados da década de 60, do século XIX, Gregory Mendel buscava fervorosamente a explicação para suas constatações em seus experimentos de hibridização de plantas. A cada retrocruzamento que realizava novas cores surgiam, sempre muito diferentes daquelas das plantas progenitoras. A partir destas constatações, Mendel postulou suas duas leis que, até hoje, são a base do estudo da hereditariedade.
A 1a Lei de Mendel diz que “Os dois alelos de um gene segregam um do outro durante a formação das células sexuais (gametas), de modo que metade dos gametas carrega um dos alelos e outra metade carrega o outro alelo”. Para o correto compreendimento desta lei, revisemos o conceito de alelos: “Alelos são formas alternativas de um mesmo gene que ocupam o mesmo Loco em cromossomos homólogos”. Já a 2a Lei de Mendel diz que “Quando dois ou mais alelos são considerados, cada um comporta-se independentemente do outro”.
Considerando-se que praticamente todas as características fenotípicas dos cães são determinadas por dois ou mais pares de alelos e que, estes, comportam-se de maneira independente e segregam uns dos outros, chegamos a explicação do porque temos tanta variabilidade dentro das ninhadas de cães.
Um determinado padreador de dogue alemão Arlequim, cor e padrão determinados por vários pares de genes, produz em seu ejaculado, milhões de espermatozóides totalmente diferentes uns dos outros, podendo gerar filhotes muito diferentes de si, melhores ou piores em termos de marcação. Combinando-se um destes espermatozóides com um dos óvulos da matriz, também com constituições genéticas diferentes, temos um novo arranjo de alelos e um novo padrão de marcação, muitas vezes, completamente distinto do dos pais.
Além disso, toda a hereditariedade das características não ocorre da mesma forma. Temos a Herança autossômica recessiva, onde os portadores dos genes recessivos não podem ser detectados exceto pelos efeitos ocasionados na ninhada. Os pais, aparentemente, não possuem os defeitos mas são portadores de genes recessivos. Os filhotes recebem um gene de cada progenitor, promovendo o “encontro” dos recessivos e a manifestação do defeito/característica/doença.
Um segundo tipo de herança é a autossômica dominante, onde o portador do gen é reconhecido, mas muitas vezes não pelo criador, ou o gen está presente sem completa manifestação, o que pode ocorrer na ninhada.
Temos também a herança ligada ao sexo, normalmente no cromossomo X, se manifestando em machos e em fêmeas se for dominante e somente em fêmeas se for recessivo (XX).
E, muitíssimo importante para a criação de cães, os caracteres poligênicos, onde mais de um gene é necessário para produzir o defeito. Ambos os pais podem ter os genes isolados e contribuir cada um com um ou mais gens que, juntos, causarão os defeitos na ninhada.
Aliado a tudo isto, a Pleiotropia afeta de maneira muito importante a criação. O pleiotropismo ocorre quando um gene está envolvido em mais de uma característica, ou seja, o gene que determina uma cor, pode determinar junto severos problemas de saúde ou de temperamento.
Como podemos notar, estamos frente a um universo de variabilidade e de fatores que afetam a seleção dos cães.
Mas como diminuir esta variabilidade ? É claro que o processo de consangüinidade diminui a variabilidade das ninhadas, mas traz consigo um grande problema, a Depressão Endogâmica.
Mas o que é consangüinidade? Defini-se consangüinidade como o “acasalamento de indivíduos mais aparentados entre si, do que a parentesco médio esperado, se eles fossem escolhidos, ao acaso, na população”.
Então fica claro que promovemos a consangüinidade na criação de cães, ao usarmos cães de mesma linhagem, com graus de parentesco muito próximos.
A consangüinidade aumenta a quantidade de homozigose e promove a diminuição de heterozigose, ou seja, aumenta a oportunidade dos genes recessivos, encobertos nos heterozigotos, se expressarem. A conseqüência geral disto é a redistribuição da variância genética, ocasionando a diferenciação genética entre linhas e uniformidade genética dentro delas.
A conseqüência principal da consangüinidade é a redução do valor fenotípico médio para caracteres relacionados com capacidade reprodutiva ou eficiência fisiológica, a chamada depressão endogâmica. Geralmente, temos a redução geral da fertilidade, da sobrevivência e do vigor dos animais.
Mas aí chegamos no principal dilema da criação de cães de raça, como promover o melhoramento genético dos animais sem promover consangüinidade ?
Uma vez que, qualquer par de indivíduos numa população, deve estar relacionado com um ou mais ancestrais comuns, num passado mais ou menos remoto, e quanto maior for o tamanho da população, em gerações anteriores, menor será a proporção desses ancestrais, começamos a entrar no conceito de Coeficiente de Consangüinidade”.
O coeficiente de consangüinidade estima a quantidade esperada da redução em heterozigose e é obtido pelo acompanhamento do pedigree do indivíduo até o ancestral comum dos pais.
Assim, devemos buscar o equilíbrio. Não temos como partir para os cruzamentos entre raças, pois acabaríamos com elas e, da mesma forma, não temos como acasalar irmãos, pais com filhas, filhos com mães, sob pena de chegarmos a um coeficiente de consangüinidade tal que inviabilizaria a vida destes animais.
Mas sabendo de tudo isso, nos perguntamos: Como deveria ser feito o Melhoramento Animal? Deveria ser realizado pela escolha dos animais com maiores valores genéticos. Mas como não se pode medir o valor genotípico e sim o fenotípico, é necessário saber a precisão por meio da qual o valor fenotípico representa o valor genético do indivíduo. Esse indicador de precisão é chamado HERDABILIDADE. A principal função da herdabilidade é o caráter preditivo, sendo que esta expressa o grau de confiança do valor fenotípico como indicador do valor genético.
Uma baixa herdabilidade indica que grande parte da variação da característica ocorre devido às diferenças de ambiente onde os indivíduos são criados (inclui-se aí a forma e os cuidados de criação do filhote). Já uma alta herdabilidade indica que as diferenças genéticas entre indivíduos são as responsáveis pela variação da característica avaliada. Também indica uma alta correlação entre o valor genético e o valor fenotípico do animal, sendo, portanto, o valor fenotípico um bom indicação do valor genético do animal.
Neste momento temos que atentar para o fato de que não existe nenhum método de criação que não seja a escolha criteriosa dos progenitores. Temos que escolher o cão e não somente seu pedigree.
Sem considerar as possibilidades de fraudes e trocas de registros genealógicos, somente o que foi postulado por Mendel, já justifica plenamente a avaliação dos reprodutores e não somente de seus registros !
De maneira alguma quero passar uma idéia de falta de importância do pedigree, apenas dizer que, podem haver casos de pedigrees iguais, cães diferentes. Um belo dogue alemão “Pet” com sua garupa mal inserida, suas orelhas de abano e seus probleminhas de aprumos, pode ser irmão de ninhada de um grande vencedor nacional, quase perfeito ! E os pedigrees destes dois cães, totalmente iguais.
Assim, nunca devemos esquecer da importância da seleção criteriosa dos padreadores e das matrizes, embasandos tanto nas suas características fenotípicas, qualidades aparentes, quanto no seu valor genético, pedigree. Privilegiemos os cães bonitos e agradáveis de ver e não somente aqueles de excelente pedigree !

ESTABELECENDO UMA LINHAGEM

O grande problema da criação de dogues no Brasil é a ausência de linhas de sangue definidas. Salvo as sempre honrosas exceções, há uma grande dependência da importação de cães. E ainda assim, a melhoria que tais aportes de outros países trazem duram apenas uma ou duas gerações.
A explicação para esse problema da criação de dogues está na excessiva valorização das importações e ausência de um programa de criação definido.
Para estabelecer uma linhagem, não basta ter cães excepcionais. O principal fator é um criterioso programa de cruzamentos e seleção. Acontece que, no Brasil, foram pouquíssimos os criadores de dogues alemães que souberam direcionar um programa de acasalamentos.
Um programa de criação sólido pode produzir resultados até mesmo partindo de indivíduos inferiores a esses. Basta atentar-se para algumas etapas, ou seja, estabelecer objetivos de criação, selecionar matrizes e padreadores e escolher corretamente acasalamentos. Obviamente, também, deve-se levar em consideração que o trabalho de criação é de longo prazo.

Objetivos de Criação
O padrão da raça deve ser sempre o ponto de partida para se estabelecer os objetivos de criação. É pela sua análise que o criador sopesará quais qualidades valorizará e quais defeitos eliminará de sua criação. Claro que sempre privilegiando indivíduos sãos e férteis.
Antes de qualquer coisa, o criador deve, a partir da leitura do padrão da raça, formar a imagem de seu cão ideal. Para isso, deverá levar em consideração que o padrão tem aspectos objetivos e subjetivos, como demonstra o seguinte quadro:

Descrição subjetiva Descrição objetiva
Aparência geral: constituição grande, forte, bem estruturada e harmoniosa.
Temperamento: amistoso, carinhoso e apegado com seus donos; reservado com estranhos; dócil, vigilante e corajoso.
Cabeça: em harmonia com a aparência geral, longa e estreita, expressivamente marcada, sutilmente cinzelada.
Trufa: larga, com narinas bem abertas.
Focinho: profundo, comissura labial bem aparente
Objetivos: tamanho médio, arredondado e melhor mais escuros
Orelhas: de tamanho médio.
Pescoço: longo, seco e musculoso.
Dorso: curto.
Linha superior: ligeiramente descendente.
Lombo: ligeiramente musculado, largo e musculado.
Anteriores: ombros e braços fortemente musculados, antebraço forte e reto, carpo e metacarpo fortes; metacarpo levemente inclinado.
Dedos: bem arqueados.
Unhas: curtas e fortes.
Posteriores: fortes e bem angulados; coxa larga e bem musculada; joelho forte; perna longa e bem musculada; metatarso curto, forte, levemente angulado e de boa pisadura.
Movimentação: harmônica, graciosa com boa cobertura de solo.
Cor:
5 cores como descritas Proporções importantes: quadratura, altura mínima de 72 cm para as fêmeas e 80 cm para os machos.
Cabeça: paralelismo, proporção 1:1 crânio/focinho.
Trufa: preta com exceção dos arlequins.
Focinho: quadrado e de pigmentação escura (excetuados os arlequins).
Orelhas: de inserção alta e faceada.
Dorso: reto.
Cauda: tamanho até a ponta do jarrete, inserção alta e larga na raiz e afinada na ponta. Em repouso, portada caída; em atenção, forma de sabre.
Anteriores: cotovelos no mesmo plano da articulação com o ombro.
Unhas: escuras (excetuados os arlequins).
Posteriores: paralelos aos anteriores.
Movimentação: membros posteriores movimentam-se em planos paralelos.

Dentro dos aspectos objetivos, não há qualquer margem de liberdade. Exemplificando, a proporção crânio/focinho deve ser 1:1. A descrição é precisa e qualquer desvio será inequivocamente uma falta, um defeito.
Por outro lado, no que se refere aos aspectos subjetivos, existe uma área de liberdade. O padrão descreve que o pescoço deve ser longo e musculoso. Entretanto, não precisa exatamente quão longo ou musculoso deve ser, nem mesmo qual é o ponto equilíbrio entre essas duas características. Há um campo dentro do qual cães com pescoços diferentes estarão igualmente dentro do padrão. Claro que evitando os excessos, tais como, pescoço curto, muito longo, pouco musculoso e franzino. É uma questão de razoabilidade, de equilíbrio e balanceamento.
Aliás, equilíbrio e balanceamento são fatores chaves em qualquer programa de criação. Uma cabeça pesada para um cão de conformação mais leve será sem dúvida uma fonte de problemas. Essa desproporção entre cabeça e corpo pode até mesmo induzir defeitos de traseira no cão.
Em termos de estrutura, alterações em uma região específica, geralmente, mostram conseqüências por todo o corpo. Por isso, não adianta estabelecer objetivos conflitantes para um plano de criação.
Também se deve atentar para o fato de que muitas vezes defeitos vêm acompanhados de qualidades e vice-versa. É o caso das cabeças pesadas e expressivas dos cães europeus que geralmente vêm acompanhadas de excesso de barbelas. Por isso, também faz parte do plano de criação estabelecer quais defeitos se pretende suportar em uma linha de sangue para se ter determinadas qualidades.
Do mesmo modo, o que é correto em determinado cão pode ser defeituoso em outro. Nesse sentido, um cão com dorso inclinado, para ter as angulações em equilíbrio, tem a angulação dianteira mais aberta e a traseira mais fechada. Já um cão com o dorso em nível terá a angulação dianteira mais fechada e a traseira mais aberta para tê-las balanceadas.
É por tais aspectos que muitos consideram a criação de cães como uma arte. É certo que o padrão estabelece algumas limitações, mas há uma grande margem de liberdade para diferentes estilos de criação. Nesse aspecto, é bom lembrar que o dogue alemão tem na sua origem fortes influências dos lébreis e molossos. Da mesma forma, diversos tipos de cães, como Danisher Hound, German mastiff, Dogge d´Ulm, Wildboar hound, Dogge du Württemberg e Tigger Doggen participaram da formação da raça no final do século XIX. Em
outras palavras, o dogue alemão tem, nas suas origens próximas e remotas, a diversidade. Nisso reside a explicação para o grande número de cores dentro da raça e mesmo para os diferentes estilos de cães.
Cabe ao criador, dentro de tal pluralidade de tipos, escolher e fixar, dentro do padrão, o estilo de sua criação, ponderando todas as características que deseja selecionar e as que objetiva excluir.
De tal modo, um plano de criação deve selecionar animais saudáveis e férteis e que se assemelhem a um ideal fixado pelo criador com base no padrão da raça. O balanceamento, a harmonia e o equilíbrio são fundamentais no estabelecimento desse ideal. Também, faz parte da fixação dos objetivos de criação estabelecer quais defeitos está-se disposto a suportar e quais qualidades se deseja valorizar.
Cabe, ainda, fazer uma última advertência no que tange aos objetivos de criação: mudá-los radicalmente significa começar do zero todo o trabalho para se estabelecer uma linha de sangue.
A formação do plantel: a seleção de matrizes e padreadores
Outro ponto chave de um programa de criação é a seleção das matrizes e padreadores, seja de exemplares adquiridos de outro canil ou de exemplares advindos de criação própria. Em quaisquer dos casos, os exemplares devem sempre se aproximar o máximo possível do ideal fixado pelo criador. A conformação dos exemplares escolhidos deve sempre seguir um padrão. É essencial que todos os exemplares de um canil que deseja fixar uma linha de sangue se assemelhem.
É uma tarefa hercúlea e ingrata tentar fixar uma linha de sangue a partir de indivíduos de características heterogêneas. Se o objetivo é estabelecer uma linha de sangue, a utilização de exemplares de conformação díspares, mesmo que sejam excepcionais, não é ideal. É bom sempre lembrar que a estrutura de um cão é determinada por uma complexa combinação de genes, em que bastam pequenas alterações para desequilibrar todo o conjunto. Nesse sentido, acasalar exemplares muito diferentes é um primeiro passo para romper um equilíbrio construído durante gerações. Estabelecer e manter uma homogeneidade de conformação de plantel é, portanto, um fator primordial.
Entretanto, a homogeneidade não deve ser apenas de conformação, mas também genética. Os exemplares devem ter cargas genéticas próximas. Acontece que há apenas uma forma de assegurar que os exemplares tenham cargas genéticas próximas e homogêneas: a utilização de cães com parentesco.
É, por isso, que, na formação de uma linha de sangue, os cruzamentos - consangüíneos próximos (inbreeding) ou distantes (linebreeding) - têm grande importância.
Da mesma forma, são peças importantes do programa de criação os indivíduos que sejam resultantes de acasalamentos fechados. Em tais cães, a análise do pedigree é importantíssima, já que se os ascendentes foram de excepcional qualidades serão grandes as chances de o cão também ser de boa conformação.
Ainda quando se fala da carga genética, a seleção de progênie é um método valioso para se fixarem as características desejadas. A seleção de progênie envolve dois aspectos complementares: a progênie - descendentes - dos melhores exemplares deve sempre ter destaque na criação e também os indivíduos de melhor progênie devem receber mais atenção.
A escolha do padreador do canil é algo sensível e de extrema relevância em um canil. Em primeiro lugar, é necessário ressaltar que o caminho mais rápido para estabelecer uma linha de sangue está na utilização de apenas um macho, já que a utilização de vários cães dificultará a uniformização do plantel. Também, não se pode ignorar que o padreador deve ser um cão excepcional e resultante de um cruzamento fechado. É que a introdução dessas ótimas qualidades possibilitará a homogeneização e o elevamento rápido do nível de criação, pois um macho pode cobrir incontáveis cadelas, imprimindo suas características em todos os descendentes do canil. A seleção do padreador é, de tal modo, uma tarefa de extrema importância. Ele não pode, de forma alguma, ser um cão medíocre.
Justamente, por isso, é sempre melhor, para os iniciantes na criação, a compra de uma cadela. É certo que é muito mais difícil adquirir uma cadela excepcional do que um macho, pois são raros os criadores experientes que não mantém as melhores matrizes para si. Entretanto, os riscos envolvidos, na compra da fêmea, são menores, porque uma fêmea mediana pode ser bem aproveitada na criação. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer de um macho.
Por outro lado, acertar na aquisição de uma boa matriz é outro ótimo começo para a formação de uma linhagem. Com uma cadela de excelente conformação, pode-se até mesmo prescindir de um padreador próprio. Basta acasalar essa cadela com os melhores padreadores e manter os melhores filhotes das ninhadas. Com isso, terá sido dado um grande passo para estabelecer uma linha de sangue. Apenas para recorrer a exemplos de criações mais recentes, vários canis tiveram grande sucesso com essa técnica, como o Paradiso di Bella (italiano) e o de la Benjamine (francês).
Uma última observação deve ser feita sobre a formação do plantel, o número de cães que formam o plantel do canil tem grande influência sobre a formação de uma linha de sangue. Quanto maior o número de integrantes do canil, mais difícil será a fixação de uma linhagem, pois haverá uma maior variabilidade de cargas genéticas e de conformações. Por isso, é aconselhável que grandes canis dividam o seu plantel em
grupos de acasalamento por proximidade parentesco. Assim, será possível formar várias linhas de sangue, enquanto que o acasalamento indiscriminado entre exemplares de um grande canil será um grande empecilho até mesmo para a formação de apenas uma linha de sangue.

Métodos de acasalamento
Para estabelecer uma linha de sangue de cães com ótimas qualidades, é indispensável o recurso aos acasalamentos fechados, sejam próximos (inbreeding) ou remotos (linebreeding). Como já dito, é o parentesco entre os cães que vai garantir a homogeneidade genética e, conseqüentemente, de conformação dos cães que irão compor a linhagem. São os cruzamentos consangüíneos que fixam as características.
Entretanto, nem sempre os cruzamentos consangüíneos são os métodos indicados para corrigir certos defeitos ou obter determinadas características. Também, é bom lembrar que o uso indiscriminado do cruzamento consaguíneo pode acarretar perda de vitalidade e tamanho nos animais, chamada depressão endogâmica. Por isso, cada uma das técnicas de acasalamento merece uma analise pormenorizada:

1) Inbreeding - é o acasalamento entre parentes próximos, especialmente irmãos inteiros, pais e filhos e meio-irmãos. É o caminho mais rápido para se fixar características. Aliás, para se obter uma grande homogeneidade na linhagem, o indicado seria utilizar técnicas de acasalamentos sucessivos entre parentes como no caso do backcrossing - técnica pela qual se cruza um pai com filha, selecionado-se dessa ninhada uma fêmea, cruzando o avô com esta neta e assim por sucessivas gerações.
Uma objeção que se faz ao inbreeding é a de que ele induz anomalias e causa uma perda de vitalidade (depressão endogámica). Aqui cabe uma observação, o inbreeding não cria nada, apenas depura a linhagem, concentrando todo o seu potencial genético. Em outras palavras, o inbreeding traz à tona todas as características de uma linha de sangue, sejam elas boas ou ruins. Por isso, se os cães da linha de sangue carregam genes que podem causar alguma doença, certamente ela aparecerá em um programa de cruzamentos fechados. O outro lado da moeda também é verdadeiro, se após sucessivos cruzamentos fechados a linha de sangue não apresentou doenças hereditárias, os indivíduos que a compõe são geneticamente sãos.
Justamente por induzir a homogeneidade de conformação e genética, o inbreeding não é o método adequado para se obter rapidamente uma característica que não está na linhagem. Exemplificando, se o objetivo é alongar pescoço de uma linhagem que tem pescoço curto, o método mais rápido será um outcross com um cão de pescoço correto. O inbreeding, da mesma forma, não é o melhor método para se obter exemplares com características superlativas. Mais claramente, o inbreeding não produzirá um dogue alemão de 1 metro de cernelha. O inbreeding é o método mais indicado para se obter características intermediárias.

2) Outcross - é o acasalamento de animais sem parentesco ou de parentesco muito longínquo (acima da 6ª geração). Não pode ser o único método para se estabelecer uma linhagem. É que os cães a serem utilizados no outcross possuem material genético distante, permitindo uma grande variabilidade na descendência. Como já dito, é o método ideal para se obter uma característica não existente na linhagem e para selecionar aspectos superlativos de conformação. No outcross, para tentar controlar a variabilidade da progênie é sempre interessante utilizar indivíduos de conformação parecida (cruzamento entre semelhantes). Também, é aconselhável que, para realizar o outcross, escolham–se cães que sejam resultados de cruzamentos fechados.

3) Linebreeding - é o cruzamento entre parentes não muito próximos, tal como tio com sobrinha, entre primos, avô com neta, etc. Geralmente se diz que o linebreeding abrange o cruzamento entre cães que apresentem parentesco até a 5ª geração. O linebreeding é um meio termo entre o inbreeding e o outcross. É uma forma de assegurar uma certa homogeneidade da linha de sangue, evitando-se os riscos do inbreeding excessivo. Por ser um método de equilíbrio, é possível na sua utilização conjugar as vantagens do inbreeding com as do outcross. Em outras palavras, é um método que mantém uma certa homogeneidade, permitindo o aporte rápido de algumas características. Da mesma forma, pode possibilitar a seleção de características superlativas conjugadas a intermediárias.

4) Cruzamento de semelhantes x cruzamento entre opostos - são métodos que não se atém necessariamente ao parentesco entre os exemplares. Para o cruzamento entre semelhantes, é essencial os exemplares que participem do acasalamento tenham as mesmas qualidades que se deseja perpetuar. Já o cruzamento entre opostos é a técnica pela qual se acasalam cães com características opostas para se obter uma progênie equilibrada (cruzamento entre um cão com garupa plana com uma cadela com garupa de inclinação excessiva). Em termos de seleção e perpetuação de características, o cruzamento entre semelhantes é um método superior em relação ao cruzamento entre opostos. É que mesmo que se consiga corrigir um defeito com base no cruzamento entre opostos certamente os defeitos anteriores reaparecerão nas gerações seguintes. Entretanto, o cruzamento entre opostos pode ser a única solução para corrigir um defeito, mas mesmo nesse caso o mais rápido possível deve-se retornar ao cruzamento entre semelhantes para que a característica possa ser perpetuada.

5) Nicking – é quando dois cães produzem melhores filhotes quando acasalados entre si do que com parceiros distintos.
Trata-se de um grande achado na criação em que as características dos indivíduos se potencializam no acasalamento. A progênie desse dois exemplares deve ser sempre valorizada e é sempre indicada a sua repetição.
Os cruzamentos fechados são, portanto, a base da formação de uma linha de sangue. Acontece que a otimização do esforço no estabelecimento de uma linhagem exige a utilização de outros métodos. Um dos grandes segredos da criação é estabelecer um equilíbrio nas técnicas de cruzamento.

Conclusão
A multiplicidade de cores na raça dogue alemão e o tamanho dos cães - uma característica superlativa - indica que os tipos de cães que formaram a raça eram bem diferentes. É com base em tal constatação que um criterioso trabalho de criação nessa raça é indispensável, em face do amplo espectro genético envolvido na raça. Sem um esforço direcionado, há sempre o grande risco de retorno a características indesejadas dos galgos e dos mastifes. Em qualquer raça, estabelecer uma linha de criação é algo penoso, mas, em uma raça com tal variação de material genético, estabelecer uma uniformidade de plantel é ainda mais difícil, o que exige um maior domínio das técnicas de criação.
COLABORAÇÃO OTHON LOPES – Canil Lands des Helds

 

 

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