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13 de maio de 2019
Pouco importa se o título é Memórias do Subsolo, Notas do Subsolo, Notas do Subterrâneo ou Cadernos do Subterrâneo. O que conta é a força do pensamento de Dostoievski em obra primorosa como arguto intérprete da alma humana, levantando um pouco as máscaras de que nos servimos tão zelosamente para ocultar nossas mazelas, contradições e paroxismos.
Quase um livreto, mas de um conteúdo que sempre reclama uma leitura adicional ou mais detida, seja por um pensamento ou ação da personagem que nosso inconsciente quer afastar pelo desconforto produzido, mas que continua ali reverberando canhestramente a nossa essência subterrânea.
Dostoievski é denso, complexo, enigmático tal qual a natureza humana e exige calma e resistência. Se não nos permitirmos a reflexão, há o risco de não emergir as sutilezas da narrativa. Vou me habituando ao estilo do autor, com ônus e bônus. A cada leitura um sentimento da rudeza de nossa natureza e do quanto a literatura nos humaniza, nos torna uno e nos faz seguir, apesar de nossa farsesca aparência.
A personagem central é anônima, uma peculiaridade que nos identifica individualmente em nossa trajetória e esse traço da personagem revela muito da natureza humana em sua complexidade relacional tão presente na ‘vida viva’.
Terminada a leitura de Dostoievski, entre outros títulos disponíveis escolhi aleatoriamente Moll Flanders, e achei bastante feliz a leitura sequencial com Daniel Defoe.
Enquanto Memórias foi uma espécie de “teoria”, em que o autor traçou pinceladas da natureza humana, de sua parte Daniel Defoe com Moll Flanders expôs a “prática” daquilo que Dostoievski sintetizou. Dostoievski anotou Memórias e Defoe aprofundou a revelação do subterrâneo humano na degeneração de Moll Flanders, cuja vida pouco edificante é cortejada pela sociedade em todas as épocas, numa evidência da liga que une os humanos em seus recessos.
É bom perceber a intertextualidade nas obras dentro da singularidade de cada autor. Dostoievski e Daniel Defoe dialogam sobre nossos subterrâneos.
Para Dostoievski, “Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio, e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas no gênero. E acontece até o seguinte: quanto mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui”.
Para Defoe, “...a minha opinião é essa, ou pelo menos é o que penso. Homens sérios, considerados pela comunidade, renomados, não são melhores que os outros, apenas conservam uma aparência melhor, ou, se você quiser, são hipócritas mais refinados.”
“Memórias do Subsolo”, um livro para ser lido e relido.
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