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1000 PRINCIPAIS AVALIADORES
23 de março de 2018
Tenho pra mim que Hibisco Roxo é um livro que se divide em três partes. Primeiro, pela voz amedrontada, introspectiva e sempre tendo muito a dizer de Kambili, somos introduzidos à assustadora mansão do patriarca Eugene, que educa sua família com um fanatismo religioso violento sempre permeado por uma formalidade delicada (ele até espanca todo mundo, sim, mas nunca grita com ninguém). Então Kambili, que é essa menina totalmente retraída de 15 anos, vai nos contando sobre toda atmosfera tenebrosa que tem dentro de casa, mas nunca deixando isso explicito ou usando palavras diretas. Ela conta o que acontece, todos os traumas que seu pai atribui a ela, ao irmão (Jaja) e à mãe (Beatrice), não esconde nada, expõe os eventos de maneira bem visceral, todavia ela não exprime o que acha daquilo. Ou, dando a entender que é obvio todo medo e toda desaprovação que sente ou dando a entender também de que não pode ter opinião nenhuma. A segunda parte da história se dá quando uma tia de Kambili, Ifeoma (maravilhosa!) aparece na época de Natal e insiste para o Patriarca Eugene que Kambili e seu irmão Jaja devem passar um tempinho na casa dela, pois eles têm pouco contato com os primos e tudo mais. Ifeoma é religiosa também, mas claro, não faz disso o grande sentido da sua vida. Ela é a figura feminista do livro (não que Chimamanda tenha que cumprir uma cota, mas eu estava esperando por uma personagem assim, logo quando comecei). Ela é viúva, professora, desprendida e muito amorosa com seus três filhos. O livro muda quando Kambili e Jaja vão passar uma semana na casa de Ifeoma. Existe um contraste tão grande entre a retração tão comum à Kambili e Jaja e a liberdade que Ifeoma dá aos filhos que é impossível à Kambili ser indiferente àquilo. E, de fato, ela não é. Tanto que a terceira parte de Hibisco Roxo, pra mim, é quando Kambili e Jaja voltam para casa depois de passarem mais tempo do que era esperado, completamente mudados! E a história consegue ficar ainda mais pesada, ainda mais interessante, com um desfecho ex-tra-or-di-ná-rio!

Assim que acabei de ler Hibisco Roxo fiquei ainda mais impressionado com o fato de ter sido o primeiro romance da Chimamanda. Como assim, alguém já chega desse jeito, com essa maturidade, essa literatura sem pressa, tão encaixada, tão polida? Acho que é talento que chamam, né?
Chimamanda ainda se preocupou em nos contextualizar na Nigéria em que nossa heroína vive. Embora eu mesmo estivesse pouco me importando com as partes onde o golpe militar era citado, (porque eu queria saber do desenvolvimento dos personagens, devo confessar) eu gostei do embasamento histórico presente ali na obra, deixou-a mais forte, mais estruturada.

Não fui sagaz o suficiente pra entender por completo o que significaria o título. Tive uma ideia, os hibiscos são presente uma boa parte da trama, mas não encaixei por completo no sentido do título, embora eu vá sair agora pela internet em busca dessa informação.

Todavia, sem dúvida, o ponto alto de Hibisco Roxo são os personagens. Tão tangíveis, tão humanos, que era impossível prever o próximo passo de cada um. Ifeoma é um show a parte e eu adorava todas as partes em que ela interagia com o patriarca Eugene, pois sempre dava um jeito de trazer para a realidade os comportamentos fanáticos e fora do comum dele.
Jaja, com uma coragem incrível, sempre o que mais tinha vontade de contestar tudo o que o pai pregava, sentindo-se em dívida com a irmã e a mãe, tendo sempre o sentimento de que deveria protege-las.
Amaka, filha mais velha de Ifeoma, com sua personalidade difícil e uma genuinidade que primeiro nos irrita, mas depois só vai enchendo nosso coração de amor. Obiora, irmão de Amaka é um dos meus prediletos (sempre levantando seus óculos que teimam em escorregar pelo nariz), tenho uma tendência a sempre gostar desse tipo de personagem, meio nerd, que sempre sabe mais do que a média e explica as coisas pras outras pessoas, então pra mim, foi um prato cheio. Temos também super carismático Padre Amadi (que não vou contar qual a importância e posição dele dentro da história).
Até o próprio pai, Eugene, é um personagem que deixa nossa cabeça girando. O nosso desejo é que Kambili o odeie a todo custo, mas ela ainda requer muito sua aprovação, seu sorriso, seu aval para ela ser quem é.
Mas não é o que acontece, até um dos últimos momentos. Porém, isso se dá pela literatura direta e crua de Chimamanda.
Isso é escrever sobre seres humanos, tão inconstantes, tão incoerentes.
Principalmente quando o assunto é amor.
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