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1000 PRINCIPAIS AVALIADORES
23 de agosto de 2019
Antes de mais nada, que fique claro: não se trata de um livro ruim. O professor Karnal, com toda sua erudição e toda sua capacidade de fala (o texto é uma degravação de suas falas) traz sempre clareza expressiva e coerência ao que ele diz. Além disso, o tema, por si só, já valeria uma leitura mais atenta.

Karnal tem pontos relevantes aqui. Primeiro em desconstruir essa nossa ideia de que somos um povo pacífico, talvez por um apego histórico excessivo a autroimagem ou por incompreensões deliberadas (como a do homem cordial), talvez, ainda, pela suavização dos conflitos como quando dizemos que não tivemos guerra civil - uma afirmação que não resiste ao teste dos fatos; o segundo é analisar o ódio como fruto de relações sociais que temos, sendo a escravidão um elemento fundamental do nosso ódio racial, que torna-se mais virulento quando os negros começam a frenquentar ambientes antes reservados ao brancos (aeroportos, universidades, serviço público) - o fato de romper os guetos promove o ódio, seja intra seja interculturalmente; o terceiro é enxergar no ódio um narcisismo frustrado em busca de redenção: toda vez que vocifero contra alguem digo mais sobre mim do que sobre quem agrido. No fundo, relaciona-se também com a inveja. Por fim, tratar do ódio como algo natural e, de certa forma, inevitavel. Justamente por dizer mais sobre mim, meu ódio pode me ensinar muito. Por tudo isso vale a pena ler o livro. O professor Karnal tem passagens brilhantes no livro.

Por outro lado, existem algumas razões para as 3 estrelas. A primeira é que, por tentar ser um texto de leitura leve, perde muito em profundidade, resumindo-se muitas das vezes em frases de efeito não analisadas e que, não se tratasse de Leandro Karnal, diria até que são frutos da doxa e não da episteme. Quando ele faz uma análise numa frase vc espera que ele fundamente, mas isso não ocorre. Ou vc toma a palavra dele como certa ou não. Não há referências bibliográficas. Aliás, e esse é o segundo ponto, não há referência alguma! ele cita dados sem dar a fonte. O que é engraçado, por que o professor critica (com toda razão) a ideia de pós-verdade, a distinguindo da mentira. Mas não faz muito diferente, pois não aponta de onde tira fundamentação para suas afirmações. O terceiro ponto é a ideia de normalização da realidade com base na história. Também sou historiador e, como tal, entendo que muitas vezes o anacronismo é um perigo. O professor por vezes faz isso, comparando temporalidades que não se comunicam, selecionando fatos históricos que reforçam sua opinião e omitindo outros. O quarto ponto é, para mim, o mais pesado: falta as vezes honestidade intelectual. Em algumas passagens, como por exemplo quando ele diz não entender, "ser um mistério" porque alguns políticos nunca são objeto de ódio mesmo comprovadamente corruptos e outros, por outro lado, o são constantemente (de 2016 pra cá isso tornou-se obvio). Quando não fala uma vírgula sobre o papel da operação lava (a) jato na propagação unilateral do ódio desde, pelo menos, 2014; uma palavra sequer, enquanto nesse período ele jantava com Sergio Moro. Parece coincidência, mas será?? Um extremo medo (e intelectuais com medo são vergonhosos) de sair de cima do muro, jamais dizendo o que realmente pensa além das generalizações de sala de aula, as quais ele domina muito bem. Karnal é um pensador conservador e não há problema nisso. Basta que ele assuma por uma questão de honestidade axiológica e, então, fica mais claro para o leitor compreender seu seletivismo analítico. Por fim, existe uma simplificação grosseira em algumas explicações que, talvez por escopo de livro, não tenha dado a devida argumentação, como igualar Aecio e Lula (um vindo da elite política, protegido da mídia, pela elite e pelo judiciário, corrupto jamais atingido e, o outro, alguém com uma história política totalmente distinta e objeto de ódio sem precedentes na história democrática recente - talvez e provavelmente também corrupto, mas sem um julgamento sério). Acredito que o gabaritado professor teria uma explicação melhor para isso, mas ela ficou fora do texto.

De modo geral, portanto, seria um livro 3.5, pois vindo de quem vem, infelizmente, a cobrança é maior.

Boa leitura a todos!
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4,5 de 5 estrelas
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