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25 de janeiro de 2016
“Cuidado! Se brinca de fantasma, em um se transforma”, diz a epígrafe atribuída à Cabala de ROSTOS NA MULTIDÃO, da mexicana Valeria Luiselli. Seu romance polifônico, meio pós-moderno e empolgante vai jogar exatamente com isso: com a vida e a morte, e a morte em vida. Composto de segmentos, o livro acompanha uma escritora-narradora que mora na Cidade do México relembrando sua história de quando morava em Nova York, e se dedicou à pesquisa sobre a vida do obscuro poeta mexicano Gilberto Owen, que mora em Nova York. Ao mesmo tempo, a narrativa – todas em 1a pessoa – acompanha o próprio, enquanto ela mesma tenta escrever um romance meio autobiográfico, meio metalinguístico.

A descrição de Rostos na Multidão pode fazer parecer um romance intelectualóide, mas se tem uma coisa que a escritora não tem é pedantismo. Pelo contrário, sua prosa é clara e honesta, e seus jogos narrativos se justificam na medida em que sua trama é em si um jogo entre realidade e ficção, mas, acima de tudo, construção de realidades. Quem é Owen? Quem é essa narradora sem nome que tenta organizar tudo? Seria ela Valeria? Mas existe uma outra narradora que, certamente, escreve uma ficção. Seu livro é como bonequinhas russas, só que mexicanas.

Enquanto medita sobre a posição da literatura norte-americana em relação à literatura do centro do capitalismo – especialmente em tempos de World Literature –, a escritora evita todos os clichês que se costuma esperar do “gênero”. Seu assunto não são as drogas, nem a pobreza dessa parte do continente. Nem quando se vale de uma fantasia, se aproxima de García Marquez. Seu realismo mágico é diferente.

Já próximo do final do livro, Owen fica obcecado com o fato de que está se transformando num fantasma. Todos os dias se pesa, e sempre emagreceu. Ele não está morrendo. Está sumindo. Evaporando. É a cartada final de Luiselli e da narradora-personagem-escritora sobre a fugacidade das relações humanas e da literatura. O ponto em que o poeta efetivamente desaparece pode ser tão meditado quanto aleatório – tal qual o final de uma narrativa.
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