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28 de outubro de 2017
Um quarto de despejo

O mundo da miséria se descortina, retratado pela pobre Maria Carolina de Jesus, a própria vítima da escassez, que vivenciou uma situação de extrema mazela social. O que se tem em "Um quarto de despejo", Diário de uma favelada" é um lamento triste da penúria em todos os sentidos. Fome de alimentos, de educação, de higiene básica, de afetos e de solidariedade. Carência total e absoluta de assistência em todas as áreas sociais, ausência de oportunidades, justiça, de qualquer projeto e interesse por parte do poder público. É uma narrativa condoída de uma parte da sociedade historicamente esquecida e deixada a margem da existência, literalmente colocada no lixo. Dejetos humanos.
É um choro, um brado deprimido de uma mãe solteira responsável pela criação de três filhos menores, que vive de catar papel e lixos nas ruas de São Paulo nos anos de 1960/1970. Carolina, sem direito à vida, por inúmeras vezes se reporta ao suicídio, posto já sentir-se morta em seu dia-a-dia. Relata a vida nas favelas, seus constantes escândalos, suas vidas entrelaçadas, mesmo a contragosto daqueles que não querem se integrar, fazer parte daquela vida de intrigas e fofocas. Maria Carolina era diferente, não se "misturava", passava os seus momentos de "descanso" em meio aos livros, fato que tornou possível a realização deste diário, escrito em um português incipiente, errôneo, gramaticalmente comprometido, contudo inteiramente compatível com as suas condições de vida. Um forte relato da fome e suas consequências nefastas, e uma denúncia dos danos provocados pela ausência de políticas públicas, tão necessárias ainda hoje, como uma forma de reparação da dignidade humana, perdida pelos favelados.
Bem antes disso, no ano de 1949, Albert Camus, em visita ao Brasil, "espantou-se com o contraste entre o luxo dos palácios e os morros do Rio, nos quais “as mulheres vão buscar água no sopé dos morros." O diário de uma favelada nos despeja de nossos confortáveis quartos, nos chamando à dura realidade da desigualdade social do nosso país. Escrito em década já relativamente distante, os fatos narrados ainda se fazem presentes, sendo atualmente mais expostos através dos vários meios de comunicação. Este relato transformou-se no que estamos a ver atualmente nas favelas cariocas. É o nosso passado mostrando a sua cara no presente e prometendo desconstruir, com uma força ainda maior, o nosso futuro.
Um ponto interessante a destacar. Maria Carolina, a despeito de sua condição, em meio a podridão, à imundície, conseguiu preservar uma certa pureza de espírito, pois imaginava, existir além das favelas, um outro mundo constituído por pessoas solidárias, amigas, fiéis, desprovidas dos sentimentos daquela gente com quem até então convivia. Deparo-me, aqui, com o que parece ser um sonho universal, o da existência de um mundo melhor além do horizonte que nos cerca. Porém, mais uma esperança desfeita. Ao sair da condição de despojo, encontrou o mesmo caráter que desprezava em meio ao mundo um pouco mais abastado. "Somos um só povo e um só espírito."
Naquela época, Maria Carolina era uma voz corajosa e solitária que conseguiu ser ouvida, ainda que do lado de fora da sociedade, no despejo. E esta é a grande proeza desta obra, marcada, sobretudo, pela privação e que, por sua essência, adquiriu a força dos grandes feitos. O título? Apenas um luxo! Não havia quarto! Do começo ao fim, apenas despejo!
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