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18 de maio de 2016
No início de 2016, uma noticia sacudiu o mercado de livros. Martha Batalha, uma jornalista recifense radicada nos Estados Unidos, após ter seu romance de estreia recusado pelas principais editoras brasileiras, havia vendido os direitos da obra para o cinema e mais "dez" editoras estrangeiras, dentre elas a badalada Sührkamp, sediada na Alemanha. Tomando à frente das concorrentes, a Companhia das Letras rapidamente chegou a um acordo e em abril, "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" chegou às livrarias para saciar a curiosidade dos leitores.

Esse caso reflete a atual crise econômica brasileira, os grandes conglomerados editoriais não estão dispostos a correr risco e investir num nome desconhecido. O mais seguro e lucrativo são as biografias de celebridades, autores conceituados ou best-sellers importados. Resta para quem não está incluído nessa lista, a autoedição ou tentar a sorte em pequenas editoras, muitas vezes, assumindo o custo e a divulgação do livro. Afinal, se Martha é prova inconteste de que as adversidades podem ser dribladas, sem dúvida, não é nada fácil repetir essa façanha, pois ela está começando por onde a maioria sonha chegar.

Quanto ao romance, tendo como cenário a cidade do Rio de Janeiro entre as décadas de 40 e 70, trata-se de uma irresistível viagem ao passado, aliás, reconstruído com precisão. Através de suas páginas, desfilam desde a tradicional Confeitaria Colombo até lojas praticamente esquecidas, como a Sloper e a Casa José Silva. Sua narrativa começa no tradicional bairro da Tijuca e chega até uma Ipanema com seus velhos sobrados e prédios recém-construídos, reduto dos novos ricos e dos artistas.

Em cento e oitenta páginas, o leitor é apresentado a Eurídice, uma mulher ativa e emponderada, mas que acabou confinada a um casamento insosso, submissa a Antenor, um marido fiel e trabalhador porém preconceituoso, cheio de mimos e manias. Para entender (ou tentar entender) sua atitude, é preciso conhecer mais de perto a rotina da família Gusmão assim como a história de seus pais, Seu Manuel e Dona Ana, além da irmã Guida que reunem uma impagável lista de personagens, como Seu Antonio, o dono da papelaria que é dominado pela mãe, Filomena, a ex-prostituta que amava e era amada pelas crianças, e Zélia, a vizinha fofoqueira que enxergava desgraça até onde não havia.

Usando um narrador onisciente intruso, absolutamente mordaz e bem ao estilo machadiano, Martha revela-se uma arguta observadora e uma impecável contadora de casos. A dicotomia de temperamento e a forte amizade que liga a equilibrada Eurídice e a intempestiva Guida faz recordar Elinor e Marianne Dashwood do livro "Razão e Sensibilidade, de Jane Austen. Também é indiscutível uma certa semelhança com a tetralogia "As Amigas Geniais", de Elena Ferrante, o que surpreendeu Martha que só foi conhecer a obra após concluir seu romance.

De cunho feminista, esse é o livro certo, escrito na hora certa, isto é, no momento em que o mercado está cada vez mais aberto para histórias escritas por mulheres e sobre mulheres. Por sinal, tenho certeza de que você já conheceu alguma Eurídice Gusmão. Ela pode ter sido sua avó, tia, quem sabe amiga da família ou a senhorinha que morava ali na esquina... Caso resolva comprovar, tire umas horas de folga, procure uma boa poltrona e bom entretenimento. ^
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