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Avaliações dos clientes

6 de março de 2018
1 - Sangue Marciano (Alan Steele) - 4 estrelas

As histórias de John Carter se tornaram muito famosas nos EUA. As explorações nos rios de Marte, os combates contra jeddaks, contra tiranos e até líderes de seitas levavam os americanos à loucura nas décadas de 1920 e 1930. Até os dias de hoje vemos reflexos da obra de Edgar Rice Burroughs nos livros de muitos autores de ficção científica. Allan Steele pegou toda essa herança e influência e ressignificou em uma história onde a colonização de Marte se tornou algo maligno. Nosso protagonista é uma espécie de faz-tudo que é contratado por um doutor para levá-lo até uma comunidade de marcianos. Nesse mundo, os seres humanos acabaram construindo grandes cidades e os marcianos se afastaram da esfera de influência dos homens e se retiraram para uma vida no interior dos desertos marcianos. São muito avessos ao contato com os homens e apenas poucos deles como Ramsey são capazes de se aproximar e entender os mesmos. Mas, o doutor deseja uma gota de sangue dos marcianos. Ele quer provar que terráqueos e marcianos possuem uma origem comum. Mas, isso vai ser uma jornada extremamente complexa e difícil.

O leitor é colocado em uma espécie de Las Vegas em Marte. Tudo respira John Carter: as garçonetes estão vestidas como as mulheres de Carter, os seguranças vestidos como marcianos vermelhos, e até tem estátuas simulando as montarias das histórias de Burroughs. Isso mostra a banalidade dos objetivos do homem ao colonizar outros planetas. Vemos que tudo o que tem na Terra foi transplantado para o planeta vermelho. Tanto as coisas boas como as coisas ruins. Essa crítica social é forte à medida em que hoje pensamos em singrar o espaço seja para encontrar outros seres inteligentes ou para criar um mundo melhor. Mas, o autor deixa claro que o ser humano visa apenas repetir o que ele fez aqui na Terra.

A relação entre terráqueos e marcianos se assemelha demais a de colonizadores e colonizados. Os colonizadores espanhóis expulsaram os nativos para o interior do continente. Estes ou foram escravizados ou criaram uma forte aversão aos europeus. Com o tempo essa aversão acabou se transformando em guerras que duraram muitos séculos. Os povos indígenas acabaram massacrados pela superioridade tecnológica dos europeus. Aqui, não é que o autor coloca que os marcianos serão exterminados, mas que isso pode acontecer. Um determinado acontecimento no conto dispara um gatilho que faz o protagonista pensar se vale a pena deter um certo conhecimento ou não. Vale a pena arriscar o tênue equilíbrio da relação entre humanos e marcianos?

2 - O Patinho Feio (Matthew Hughes) - 5 estrelas

Esse é um conto que vocês vão criticar a escolha do gênero dele. Não acredito que o Matthew Hughes tenha escrito uma ficção científica justamente pela história na qual ele se inspira para escrever a história: Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury. Muitos consideram a escrita de Bradbury em seu clássico como uma fantasia passada no espaço, pelos elementos que ele utiliza e pela maneira como conduz a trama. Hughes faz o mesmo em um planeta desconhecido e encantador.

A narrativa acontece em terceira pessoa a partir do ponto de vista de Fred Mather, um arqueólogo que conseguiu seu lugar na expedição a Marte por acaso, mentindo sobre o seu currículo. Tudo o que ele quer é ter a sensação de estar sozinho no planeta e tentar encontrar alguma coisa que desperte a sua atenção. Ele foi destacado pelo seu supervisor, Red Bowman para seguir até a Cidade dos Ossos e inserir uma série de transponders no chão para facilitar o trabalho das máquinas escavadoras. Estas irão retirar todo o minério possível, não sem destruir tudo ao redor. Mas, Mather vai encontrar estranhas estruturas na cidade que o transformarão para sempre.

No fundo temos alguns temas circulando. Não quero discutir aspectos da metade final do conto, mas dá para comentar o que é dito logo nas primeiras páginas. A New Ares Mining é uma empresa que está ali para retirar o que for possível de Marte e tentar lucrar ao máximo com isso. Hughes retoma o tema da colonização selvagem que foi trabalhada por Bradbury em seu clássico. Aliás, o conto em si é uma releitura de um dos melhores contos da coletânea Crônicas Marcianas e tem até um easter egg para os leitores: Bowman fala de uma expedição que deu errado porque um dos que estavam lá matou todos os outros. Pois é... esta é a terceira expedição descrita por Bradbury em um dos primeiros contos da coletânea. Então, o que podemos ver é que o homem ainda deseja explorar de forma selvagem e sem se importar com os arredores tudo o que ele consegue retirar dos lugares. Muitas vezes as riquezas de uma civilização não podem ser medidas em ouro, prata ou metais preciosos, mas em experiências que vão além de nossa imaginação.

3 - O Acidente do Mars Adventure (David D. Levine) - 4 estrelas

Queria aproveitar a resenha deste terceiro conto para fazer uma crítica básica:

Leitores, os senhores entenderam qual é a proposta da coletânea?

Pergunto isso porque muita gente teceu críticas duras à coletânea e sequer entenderam a essência dos contos apresentados aqui. Quem estava esperando space operas contemporâneas, hard sci fi de ponta, ideias de vanguarda, quebrou a cara feio. Não é nem de longe a proposta de Crônicas de Marte. Gardner Dozois pediu aos autores que escrevessem histórias baseadas nas antigas pulps das décadas de 1930 e 1940, como as que Edgar Rice Burroughs, C.L. Moore e até o Ray Bradbury chegaram a contar nas páginas da Weird Tales e de tantas outras revistas. Desculpe dizer, gente, mas isso não é ficção científica... é fantasia. A maioria das histórias presentes aqui puxa para o fantástico e não para o científico. E algumas, como este conto do David D. Levine vão se inspirar no Edgar Rice Burroughs que escrevia histórias com elementos absolutamente bizarros.

A história é divertida. Não é para ser levada a sério. Lógico que eu não vou dar nota máxima para um conto assim, mas eu ria sozinho lendo a história. Os absurdos que o Levine inventava me fez lembrar e muito de quando eu me divertia na adolescência lendo as histórias de John Carter. Não dá para a gente ser aquele leitor de ficção científica fiscalizador o tempo todo; relaxa. A história da ficção científica da Era de Ouro é repleta de ideias bisonhas, como as de Curt Siodmak, Edmond Hamilton e tantos outros. Levine resgata essa nostalgia em uma escrita bem simples de ser entendida. Chega até a brincar com os clichês das histórias de piratas.

4 - Espada de Zar-Tu-Kan (S.M. Stirling) - 4 estrelas

Beckworth é um jovem pesquisador que chega à Marte e vai morar com Sally, alguém que já conhece o funcionamento daquela sociedade. Apesar de os humanos terem colonizado boa parte de Marte, Zar-Tu-Kan ainda tem a maioria de marcianos. É uma cidade em que as culturas terrestre e marciana entram em conflito com muitos não compreendendo os hábitos estranhos desses povos. Quando Beckworth é sequestrado por Coercivos (mercenários marcianos) dentro de seu apartamento, Sally vai buscar a ajuda de Teyud, a Graça Pensativa, uma Coerciva que já trabalhou com Sally para tentar resgatá-lo. Teyud e Sally vão precisar enfrentar inúmeros perigos para descobrir quem levou Beckworth e como resgatá-lo.

Claramente Stirling se baseou em filmes de artes marciais para compor a personalidade dos marcianos. Até mesmo os nomes curiosos como Graça Pensativa, Dinastia Carmesim, Harmonia Sustentada. Dá aquele ar de paródia. Então, é aquele tipo de conto que você vai se divertir lendo, muito mais do que tentar buscar uma seriedade na história. As cenas de ação são bem construídas e muito dinâmicas o que me fez gostar da escrita do autor. O final é curioso e surpreende o leitor. Não por ser um plot twist, mas por ser irônico até. A história é escrita em uma narrativa em terceira pessoa com discurso direto, mas o estilo de escrita nem é o mais importante da história, mas o seu ritmo alucinante.

Os personagens são bem ricos e, mesmo não tendo muito espaço para desenvolvê-los melhor, redondinhos. Sally é uma personagem marcante, com uma personalidade ácida e distinta. Ela é bem ativa na história e representa bem o seu papel como protagonista. Satemcan é o cachorro-que-não-é-cachorro e fornece alguns momentos bem engraçados como durante a invasão no apartamento. A gente acaba se afeiçoando pelo Satemcan. Teyud está ali para representar o choque de culturas entre terráqueos e marcianos. Representa um jeito diferente de pensar e ver o mundo.

5 - Bancos de Areia (Mary Rosenblum) - 4 estrelas

Maartin é um menino que sofreu um acidente junto com sua mãe quando estavam indo até as minas em Marte. Eles caíram em um banco de areia e apenas o menino sobreviveu. E ele bateu a cabeça muito forte, causando uma hemorragia que deixou sequelas. Agora, ele consegue ver estranhas criaturas perambulando pelo ambiente. Criaturas além dos seres humanos. Por causa do acidente, ele não consegue mais articular bem o sentido da fala então as outras pessoas o enxergam como um retardado. Mas, ele pode ser o único que pode salvar a cidade quando os homem começam a destruir os bancos de areia onde as pequenas criaturas que somente Maartin vê decidem retaliar.

Foi bem ousado da Mary Rosenblum trabalhar com Maartin. Ele é um menino com muitos problemas para compreender o mundo ao seu redor. Enxergamos a história a partir do seu ponto de vista. Por causa de seu acidente, ele articula as frases e as percepções de um jeito estranho, que pode parecer uma escrita truncada para o leitor. Mas, não é. É simplesmente a maneira como um menino com hemorragia cerebral e dificuldade de articular ideias em frases enxerga o mundo. Por essa razão, suas descrições são camadas atrás de camadas em riqueza literária. Não dá para julgar ingenuamente o que ele está descrevendo e descartar como se fosse algo inútil. Um contraste muito bom vai ser quando Jorge, um dos mineiros, vai traduzir o que Maartin está tentando dizer para as outras pessoas da cidade. A narrativa é em terceira pessoa e o discurso varia entre o direto e o indireto livre.

O tema da existência é muito bem abordado pela autora. Quando pensamos em um ser, seja lá o que ele for, sempre pensamos em uma dicotomia vivo ou morto. Mas, no universo pode existir algo além disso ou diferente disso. Ainda não temos capacidade para explicar o que isso poderia ser, mas Rosenblum nos mostra o quão complexo isso é. Nos faz pensar o quanto sabemos sobre a realidade de fato. E a incompreensão do mal que os mineiros estavam fazendo também é típica da exploração selvagem do homem por recursos. A riqueza sempre acaba cegando o nosso julgamento.

6 - Nas Tumbas dos Reis Marcianos (Mike Resnick) - 4 estrelas

Temos a história de Scorpion e seu companheiro Merlin (que não é um cachorro), mercenários que são os melhores o que fazem. Pelo preço certo eles podem cumprir a sua missão desde um assassinato até um resgate. Quedipai é um marciano que se especializou nos escritos antigos e deseja encontrar a Tumba doa Reis Marcianos onde ele irá encontrar um livro sagrado contendo todos os segredos ancestrais. Uma missão que parece simples, mas vai ser uma montanha russa de emoções.

Quem busca uma aventura séria com altos conceitos não vai encontrar aqui. Resnick escreve uma história muito solta em uma narrativa em terceira pessoa em discurso direto no qual o que vale é a aventura. Escapar de perseguidores, evitar armadilhas, enfrentar perigos ancestrais. Parece até um Indiana Jones no espaço. E é essa a proposta. A escrita do autor é bem simples e direta, mas ao mesmo tempo ele consegue nos entregar algo formidável. Não é fácil escrever uma narrativa que flua como água, no qual as páginas se passam sozinhas sem sequer o leitor perceber o que está fazendo. Apesar de suas quarenta e duas páginas, a história pode ser lida direto sem interrupções.

7 - Saindo de Scarlight (Liz Williams) - 4 estrelas

Zuneida Peace já foi escrava e dançarina em Cadrada. Precisou fazer várias coisas das quais ela não se orgulha. Disfarçando-se de um homem, Thane, soturno, protegido por uma máscara, ela vaga pelo continente em busca de serviços. Ela foi contratada por Houlsen para resgatar a princesa Hafyre sequestrada pelo feiticeiro de Ithiss. Ao longo de sua busca ela vai precisar lidar com o seu passado e enfrentar diversos desafios. Principalmente outro caçador de recompensas chamado Nightwall Dair.

Adorei a personalidade de Zuneida. A autora consegue nos entregar uma personagem forte que precisa viver em um mundo onde as mulheres não tem espaço. Elas servem a propósitos servis, mas mesmo assim nossa protagonista consegue tocar sua vida e enfrentar os seus desafios de frente. Ela não é nem uma mulher-guerreira, mas alguém que precisou se adaptar a um meio difícil e agressivo a ela. Esconder sua identidade foi a única maneira que ela encontrou para manter sua integridade. Em todos os momentos em que ela se encontra em perigo, Zuneida faz suas escolhas sem pestanejar.

A ambientação não é nem um pouco de ficção científica. A autora usou o planeta Marte como uma ambientação incomum como Nárnia ou a Terra Média ou qualquer outro mundo fantástico. Tem algumas coisas que lembram armas futuristas, mas poderia fazer parte de qualquer livro de fantasia. A autora demonstrou sua flexibilidade diante da proposta e se inspirou em autores como C.L. Moore que usam esse tipo de espaço para construir suas histórias. Não dá nem para falar muito sem estragar as surpresas que a autora apronta por aqui.

8 - Os Manuscritos do Fundo do Mar Morto (Howard Waldrop) - 5 estrelas

O nosso protagonista está em uma jornada para reviver os passos de um antepassado chamado Oud. Há milhares e milhares de anos ele embarcou em uma jornada rumo a um ponto distante onde ele teria dado origem à forma como os marcianos passaram a viver. Ele descreve sua jornada em um diário de viagem que o protagonista procura reviver passo a passo. A história possui dois pontos de vista: em primeira pessoa com o protagonista contando como está o andamento da reconstituição e em terceira pessoa com o diário de Oud.

Howard Waldrop mostra muito bem como é a nossa cisma de buscar nossa origens. Se tornou algo quase filosófico entender de onde viemos para projetar o para onde vamos. Para o protagonista essa é uma viagem emocional, não há um objetivo profundo por trás e ele sequer espera encontrar algo espetacular no ponto onde Oud fez seu ritual de passagem. Neste caso aqui, não se trata de dar importância ao objetivo final, mas à trajetória em si. São as etapas da viagem que vão fornecendo ao protagonista insights sobre si mesmo.

A criatura Oud é bem original. A gente sempre tende a imaginar os personagens espaciais como humanóides e eu imaginei isso até a metade da história. Quando Waldrop descreveu parte da constituição física do personagem, meu queixo caiu. Ele nos surpreende de uma maneira incrível e até a gente ficava se perguntando quem é o tal de Gui que aparecia de vez em quando no diário. Isso porque no começo, ficamos sabendo que Oud embarca sozinho na jornada. Gostei da originalidade e isso me fez querer muito ler outras coisas do autor.

Vale destacar também que de certa forma a escrita é feita em uma maneira epistolar. Logo temos trechos do diário alternando-se com a narrativa em primeira pessoa do protagonista. Para quem quer aprender novas formas de uso deste tipo de estilo, aqui fica uma excelente dica.

9 - Um Homem Sem Honra (James S.A. Corey) - 4 estrelas
Para os leitores que buscam uma grande space opera nos moldes do que eles publicaram, vai tomar uma rasteira feia. Esse é um conto muito inspirado nas histórias de John Carter, com várias situações impossíveis acontecendo e personagens com uma fala bem estóica e estilosa. A escrita é na forma de uma carta na qual o protagonista, o capitão Lawton conta ao rei da Inglaterra as suas aventuras em Marte. Ele pede perdão por ter cometido um crime último contra a sua honra.

O estranhamento inicial é pela escrita estranha e até "ultrapassada" do autor. Mas, isto é um estilo, de forma a homenagear os pulps e romances planetários do começo do século XX. Gostei da coerência com a qual o autor manteve sua escrita e em nenhum momento encontrei uma inconstância (ele não surta e muda o estilo no meio da história). As falas dos personagens parecem muito coerentes com aquilo que eles querem passar e com o lugar de onde eles vem. Lawton é um corsário e ele vive ao lado de uma tripulação de bandidos e rejeitados.A vida no mar é dura para eles e isso forma na tripulação um esprit de corps que os fazem ainda mais mortais. Para mim, a dupla acertou e muito na criação de uma escrita que pudesse reviver a época dos piratas.

Os personagens são bem construídos também. Mesmo aqueles que participam pouco da história. Novamente fica aquela impressão de uma história enorme, mesmo ela sendo apenas um conto. A gente fica querendo ver mais aventuras com o sr. Darrow, o jovem Carter, o gentil La'an (uma espécie de homem sapo) e, claro, da valente Carina Meer. O mais legal é que o personagem deixa uma série de pistas quanto a outras aventuras que ele possa ter vindo a fazer em Marte, mas ele usa aquela expressão do tipo "mas, isso é uma outra história". O contorno dado aos personagens os faz se individualizar uns dos outros. Carter é aquele jovem ambicioso que faz o que for possível por dinheiro. O sr. Darrow é o fiel imediato da tripulação, que já viveu inúmeras aventuras do lado do capitão e que não vê outra vida além dessa. Carina representa o elemento alienígena na história na primeira metade e é ela quem abre as portas para uma outra maneira de enxergar o mundo.

A história se centra na noção de honra. Os personagens por terem sido construídos a partir de um ideal romântico, seguem toda uma série de códigos de conduta de cavalheiros. Se fôssemos posicionar os personagens em alguma corrente literária, seriam como os personagens de romances do século XIX. Então a todo momento, vemos o capitão enfrentar obstáculos que vão testar a sua noção de honra. Até porque o governador Smith, mesmo sendo um vilão, segue as normas do cavalheirismo. Mas, aí fica aquela pergunta: se o cavalheirismo torna alguém virtuoso, por que um ser inescrupuloso como Smith é honrado? Existe outro caminho além da honra? É possível ser bondoso e desonrado? Essas são as questões deixadas pelo autor nessa história.

10 - Escrito no Pó (Melinda Snodgrass) - 5 estrelas

O quanto a falta de ação pode ferir as pessoas ao nosso redor? Muitas vezes somos colocados diante de decisões difíceis: sair de um trabalho e ser feliz, se separar porque uma relação não deu certo, dar uma bronca em um amigo que está machucado. É aquele momento em que tudo que está entalado na garganta sai como uma torrente de lava vulcânica que amarga o nosso interior. Devemos ficar quietos ou expulsar nossos demônios? É com essa proposta que Melinda Snodgrass escreve uma história repleta de sensibilidade e que fala um pouquinho a cada um de nós.

Stephen é um velho amargo que depois que perdeu sua esposa Catherine se tornou uma pessoa rude. Mas, ele precisa de pessoas para cuidarem dele, pois sua saúde está debilitada. Catherine morreu por conta de uma doença que afeta muitos humanos que colonizaram Marte, os obrigando a seguir para as cidades abandonadas pelos marcianos e lá permanecerem até adoecerem por completo. Kane e Noel são um casal homossexual que conseguiram ter uma filha, Tilda, através da ciência avançada da época, mas esta se parece muito com Catherine. Stephen acaba tendo um carinho profundo por ela. Kane e Noel viajam para Marte para cuidar de Stephen e de seus negócios e chamam Tilda para visitá-los. Seria uma visita curta, já que Tilda vai retornar à Terra para ingressar na universidade de Cambridge para estudar psicologia. Mas, Kane e Stephen tem outros planos para ela: obrigá-la a estudar agronomia e a assumir o "negócio da família".

Adoro quando autores de ficção científica pegam temas batidos de ficção e transportam para este tipo de cenário futurista, dando uma nova cara ao enredo. Quantas vezes já não vimos o tema da criança que é obrigada pelos pais a assumir o negócio da família e terá que lutar para provar que ele deve seguir o seu próprio destino. Esse é o tema da história. Claro que existe toda uma série de situações a mais colocadas aqui como as cidades marcianas, o ambiente inóspito. Achei o enredo genial e a forma como a autora vai nos encaminhando para a conclusão é magnífico. Ela empilha os acontecimentos um em cima do outro até que não há retorno para aquilo que acontece mais para a segunda metade. O status quo de todos é quebrado por conta da decisão de Tilda. Ela é a mola que provoca a mudança.

Muita coragem da autora colocar um casal gay como protagonista da história. O que mais me satisfez é como ela fez com que eles se tornassem absolutamente normais, sendo um casal propriamente dito. O fato de ambos serem homens não é o mais importante. O amor que um sente pelo outro é bonito e doce. Noel representa o lado brando da relação e deseja que a filha tenha liberdade para fazer suas próprias escolhas. Kane é preso à sombra de seu pai, Stephen, e comprou a ideia de que é preciso que Tilda permaneça em Marte. Outro elemento curioso é como os papéis são invertidos: Noel fez parte do exército de defesa da Terra e participou de inúmeras guerras enquanto Kane é uma espécie de fazendeiro. Noel sendo o mais doce da dupla era para ser alguém cruel, que viu a morte de perto em vários momentos. Mas, tal não é o caso. A relação de ambos é riquíssima, fazendo com que todo o núcleo familiar seja importante para a história.

11 - O Canal Perdido (Michael Moorcock) - 4 estrelas

Michael Moorcock pertence a uma outra geração de autores que desbravaram o universo de fantasia e trouxeram um sopro de ar fresco ao gênero. Portanto, ao lê-lo é possível perceber o quanto sua pena é carregada com o peso da experiência e da habilidade de romper com os padrões. Ele nos entrega uma história sobre alguém que vai ser impelido a se tornar um herói, mesmo diante de tudo aquilo que acredita ser o contrário.

Mac Stone é um ladrão; alguém que aprendeu em toda a sua vida que é preciso sobreviver antes de tudo. Tendo sido vendido ainda pequeno por sua mãe para trabalhar no subsolo de um asteróide em um ambiente extremamente perigoso, Mac aprendeu a ser ardiloso. Tendo conseguido fama e fortuna através de sua habilidade de se adaptar às mais perigosas situações, ele se vê perseguido agora por um estranho caçador. Quando encontramos com ele, Mac está fugindo pelos desertos marcianos de forma a conseguir uma brecha para matar aquele que o está caçando. E descobrir quem quer a sua cabeça. Mas, ele se verá envolvido em uma trama maior que pode colocar o planeta inteiro em risco.

Me lembro da sensação da leitura depois da quinta página da história. Pensei: "caramba... estou lendo um western". A história te passa a sensação disso a todo momento: um cavaleiro solitário, perambulando pelo deserto e que só deseja uma vida simples no planeta em que nasceu e aprendeu a amar. A história parte do ponto de vista de Mac e passamos longos momentos apenas com o protagonista em que ele nos transmite seus sentimentos e sensações sobre o que ele está vivendo. O leitor percebe que o personagem é um solitário, mas que ele deseja para si algo diferente. Porém, devido a tudo o que ele teve de fazer para sobreviver, ele não se sente digno de ter alguma coisa melhor. É muito engraçado porque quando o chamado do herói vem a ele, ele não recua. Aceita de pronto e entende que aquela é a possibilidade de se redimir.

O único problema nesse conto é o imenso info dumping que tem na metade da história. O autor conta toda a história do desenvolvimento marciano ao longo de mais de dez páginas. Isso faz a história ficar um pouco lenta na sua metade. A gente precisa dessa história para entender o peso da decisão e da missão de Mac, mas isso poderia ter sido feito de forma diferente. O personagem poderia ter flashes através do capacete, ter descoberto um diário ou até o holograma contar a história em partes enquanto Mac se dirige para o clímax.

Enfim, se você ainda não teve a oportunidade de ler alguma coisa escrita por Michael Moorcock, essa é a sua oportunidade. O autor tem uma escrita muito elegante e os altos conceitos que ele cria são facilmente compreensíveis.

12 - A Pedra do Sol (Phyllis Eisenstein) - 4 estrelas

Assim como o conto de Melinda Snodgrass, estamos diante de um conto que explora bastante o lado emocional dos personagens. O ambiente de Marte acaba sendo palco para uma exploração da relação entre pai e filho e de o quanto é importante entendermos os desejos de nossos pais, queiramos ou não seguir aquilo que eles nos deixaram.

Depois de passar alguns anos estudando na Terra, Dave retorna para casa para retomar os negócios de turismo em sítios arqueológicos junto de seu pai, Ben. Mas, ao chegar em casa, Rekari, o estranho assistente marciano de Ben, informa a Dave que seu pai morreu, vítima de um problema cardíaco. Rekari lhe entrega uma pedra do sol e lhe diz que esse foi o último desejo de seu pai. Mas, o filho quer ter uma conversa final com seu pai e lhe prestar as devidas homenagens e parte até o local onde ele foi enterrado. A Pedra do Sol deixada por Ben a seu filho tem um significado profundo que ele só descobrirá ao longo dessa viagem.

Phyllis tem uma pegada muito boa acerca do psicológico dos personagens. Vemos o choque cultural entre Dave e Rekari, mesmo Dave sabendo como se comportar diante dos marcianos. Seus hábitos ainda lhe são estranhos e Rekari apenas lhe passou parte do conhecimento total sobre seu povo. O quanto é importante a aceitação de outros. Dave é diferente porque é um terráqueo nascido em Marte. Isso faz dele um marciano? Mesmo ele sendo de outra raça? Será essa dicotomia que perseguirá toda a narrativa. Seja na capacidade que ele tem de portar uma Pedra do Sol, uma joia dada ao herdeiro legítimo de uma família marciana, seja no que ele encontrará no final da história.

A escrita é feita em uma terceira pessoa e, na maior parte, em discurso direto. Apesar de o conto possuir largos trechos descritivos e poucos diálogos, ainda podemos caracterizá-lo como direto pela forma como o autor constrói seus diálogos. Gostei do domínio que ele tem sobre seus personagens e a maneira como ele fez para abrir aquilo que eles sentem no fundo de seus corações. Esse é, sem dúvida, o grande diferencial desse conto.

15 - A Ária da Rainha do Norte (Ian McDonald) - 5 estrelas

Isso é que é maneira de encerrar uma coletânea. UM conto de altíssimo nível escrito por um dos caras que eu considero um dos pistoleiros da ficção científica; Ian McDonald. Aqui no Brasil, apenas Brasyl (sem trocadilhos entendidos) chegou a ser publicado, sem uma boa recepção do público. Uma pena, sinceramente. Não aprenderam a apreciar a ótima escrita deste autor que é muito criativo. Ele sempre usa algum ambiente diferente, ou coloca os personagens em uma situação pouco usual.

Aqui, somos apresentados a lorde Jack e Faisal. Um é um cantor de ópera ao estilo antigo e com um talento que o coloca em outro patamar. Já Faisal é seu ajudante, fazendo as vezes de alguém que cuida do seu bem-estar ao mesmo tempo em que é o pianista. Jack é um bon vivant, alguém que se embebeda, curte mulheres e a boa vida que a profissão de cantor lhe assegurou. Mas, eles estão falidos: a vida de luxos deixou uma dívida enorme. Graças a alguns contatos eles são enviados para realizar cinco shows para um grupo de militares que estão nas linhas de frente na guerra contra os uliris, um povo que detesta a presença dos terráqueos em Marte. Jack e Faisal vão ver todas as agruras e o terror da guerra da primeira fila.

Uma coisa que é preciso dizer acerca da escrita de McDonald é como ela é elegante. O título da história pode ser dado tanto a um momento final da narrativa quanto à própria composição da mesma. A escrita é feita em terceira pessoa e composta como se fosse a letra de uma música. Os momentos de luxo e segurança se parecem com uma canção tranquila e acolhedora; os shows se parecem com refrãos de uma bela música dançante; as batalhas se parecem com música clássica com altos e baixos. A forma como ele descreve uma batalha no espaço parece algo saído de uma Cavalgada das Valquírias. É uma beleza da violência, um encantamento do aterrador. Mortes são apresentadas como innuendos.

A relação entre os dois personagens é forte. Ambos desenvolveram uma comunicação que muitas vezes a gente confunde com a de dois amantes. Aliás, Faisal deixa transparecer que sente algum tipo de atração por Jack ao mesmo tempo em que sabe que jamais será tão talentoso quanto ele. O olhar de Jack quando observa o absurdo da destruição é o prego final no caixão dos sonhos de Faisal. Ele sabe que não consegue observar os mesmos detalhes e a mesma música que Jack vê em algo tão fútil quanto dois povos se matando. E então, a gente se questiona: o que é mais forte, o amor pelo homem ou a adoração pelo mito? Jack possui uma personalidade extremamente complexa por ter passado pelo luxo e pelo lixo. Ele tem um comprometimento artístico incrível, capaz de passar por uma plateia ou por um grupo receptivo, ou até por uma festa onde todos estão tão bêbados que nem raparam nele.

A ambientação da guerra já foi trabalhada inúmeras vezes. Seja com personagens que sofrem com ela ou até aqueles que fazem parte dela. Mas, é sempre muito curioso quando o autor consegue nos mostrar a visão daqueles que não estão envolvidos necessariamente com a guerra. São aquelas pessoas comuns passando por toda a violência que os cerca, sem poder fazer nada a respeito. São histórias carregadas de emoção e sentimento. E aqui o autor consegue entregar exatamente isso.

Baita maneira de encerrar uma coletânea, conto recomendadíssimo!
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