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12 de outubro de 2018
Um grande desafio para qualquer crítico de literatura fantástica é analisar um conto de realismo mágico. Isso porque estas histórias nem sempre seguem um padrão específico. Escritores adeptos do realismo mágico são subversivos, vanguardistas e inovadores. Nem sempre o que está escrito nas páginas é aquilo que ele quer dizer. É preciso ultrapassar a barreira das linhas e buscar nas simbologias e nos significados secretos o que realmente está sendo dito. Nesse sentido eu adorei a escrita de Carlos Fuentes e eu consigo perfeitamente inseri-lo na tradição de boas histórias de terror psicológico.

Felipe Montero é um professor em busca de um emprego. Ele pega um anúncio e vai até a casa da senhora Consuelo, uma viúva que deseja que as memórias de seu marido, o general Llorentes sejam continuadas por alguém que consiga emular a sua escrita. Felipe acaba permanecendo na casa como uma exigência da senhora e acaba convivendo com a acompanhante de Consuelo, a jovem Aura. Aos poucos, Felipe vai se encantando com a beleza de Aura e percebendo que cuidar da senhora é, na verdade, uma prisão para ela. Mas, pouco a pouco Felipe vai se dando conta de que existem coisas estranhas e inexplicáveis acontecendo na casa. A barreira entre o real e o fantástico vai sendo quebrada e o próprio coração de Felipe acaba se tornando cativo.

Antes de mais nada é preciso elogiar e muito a escrita de Fuentes. Com um predomínio de frases curtas e jogos de palavras, ele vai conduzindo o leitor através de uma escada em espiral que nos retira do lugar comum. A própria ambientação cria essa confusão no leitor. Em vários momentos não sabemos se o que estamos vendo é real ou não. Por exemplo, o estranho coelho de Consuelo, o jardim atrás da casa que ora parece existir, ora não. Somos jogados de um lado para o outro até que a gente se assenta nesse estranhamento pelo qual o personagem vai sendo inserido. Digo aos leitores que prossigam na leitura porque ela pode parecer estranha no começo, mas Fuentes vai amarrando as pontas pouco a pouco e no final tudo vai ficar bem claro e aterrador para a gente. Vai ser um tremendo soco no estômago.

Não posso tocar na temática trabalhada no livro porque do contrário eu daria um spoiler poderoso. Prefiro comentar sobre o jogo de luz e sombras que ele faz ao longo da narrativa. Consuelo representa as sombras, a velhice e a putrefação; Aura representa a luz, a juventude e a beleza. Isso fica claro nos objetos e situações que ambas proporcionam a ele. Aura mostra a ele um jardim com uma bela paisagem enquanto Consuelo o leva a um quarto escuro contendo um baú de lembranças cercado por ratos. A própria figura do coelho representa o renascimento, a fertilidade. Essas brincadeiras parecem inocentes ao desatento, mas pouco a pouco vão formando um quadro geral sobre o que o autor está tentando nos dizer.

Fuentes cria uma história inesquecível nos mostrando a flexibilidade da fantasia diante de temáticas tão diferentes. A fantasia está presente de forma tão sutil que o leitor precisa atentar o olhar e prestar atenção no que está sendo dito. De qualquer forma é uma história que merece ser lida.
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