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10 de maio de 2018
Seguindo tradições que remontam ao Sword & Sorcery, O Teatro da Ira, romance de estreia do designer Diego Guerra, se propõe a narrar uma história anti-tolkeniana onde não existe nenhum grande confronto entre o bem e o mal, apenas a iminência de uma guerra mesquinha e inescrupulosamente humana. Contando com narrativa e intrigas semelhantes a Guerra dos Tronos, mas com elementos que acabam tocando na saga do witcher Geralt de Rivia, a obra apresenta um mundo de fantasia sombria com uma história que não se afoga nos pressupostos do gênero e entrega um romance superior a algumas das obras mais conhecidas da literatura fantástica brasileira.

Em uma trama bem amarrada, o livro conta uma história de violência e intriga, com diferentes grupos querendo prevenir, ou iniciar, uma guerra entre os reinos ao sul e ao norte do Império de Karis. Jhomm Krulgar é apenas um mercenário, quase um animal em busca de vingança; já Thalla é filha de um dos mais ricos comerciantes do Império, capaz de acessar os sonhos alheios e direcionar as pessoas para onde ela quer que estejam. E é justamente Krulgar quem ela manipula e pretende usar como um assassino, como sua arma para matar um príncipe, evitar uma guerra e punir o seu pai. No entanto, eles e seus companheiros não são os únicos a ter olhos voltados para o sul, para o reino do rei Thuron; o magistrado Marhus Grahan viaja com uma comitiva imperial que leva presentes, pedidos de paz e ameaças veladas, sem saber que também carrega um assassino.

A primeira metade do livro funciona principalmente para juntar os personagens e colocá-los na direção de um teatro tanto literal quanto figurado que está sendo armado na cidade de Illioth. É impossível não fazer comparações com Guerra dos Tronos. A narrativa utilizada por Guerra é semelhante à de George Martin, valendo-se de cenas com pontos de vistas de diferentes personagens, que se auxiliam e antagonizam, para compor a história de intriga e violência que está sendo contada. É principalmente no início do livro que o estilo fica mais próximo dAs Crônicas de Gelo e Fogo. Enquanto os personagens estão separados, cada um apresentando a suas próprias premissas e diferentes aspectos do mundo de Qran e do Império de Karis, leitores de Martin irão facilmente fazer a correlação, embora, conforme os caminhos dos protagonistas começam a se juntar e suas cenas se intercalam, essa percepção diminua. É interessante notar que, diferente do autor de Guerra dos Tronos e, aliás, de muitos autores de fantasia da atualidade, Guerra não tem pudores em ocasionalmente alterar o foco do ponto de vista entre um parágrafo e outro, recurso que utiliza com eficiência e sem deixar a narrativa confusa.

A semelhança com Guerra dos Tronos também se estende à exposição do mundo fantástico que ambienta a história e, tal qual como na narrativa, este aspecto também sofre uma mudança do início para o meio do livro. Como na obra de Martin, o Teatro da Ira se importa pouco em explicar ou descrever o mundo de Qran, deixando que as informações pouco a pouco sejam absorvidas pelo leitor conforme vai tendo contato com os termos, locais e amostras da cultura local. Contudo, por suas cenas serem muito menores, o recurso acaba não funcionando tão bem quanto em Guerra dos Tronos e muitos conceitos acabam não sendo entendidos no momento em que deveriam e em alguns momentos informações parecem não ter sido bem apresentadas.

Conforme o livro vai chegando à sua metade, o autor parece ter mudado de ideia quanto ao assunto, e pode-se ocasionalmente encontrar trechos descrevendo e explicando aspectos do Império de Karis. Até mesmo os diálogos parecem funcionar melhor para fazer os leitores entender a história e a cultura do lugar. É uma pena que se tenha decidido expor menos a ambientação no início do livro, pois a história e a cultura de Karis, bem como a estranha magia que permeia a terra do lugar, são interessantes, originais, e valeriam uma exposição maior. Ainda assim, ao fim do livro é possível entender bem o suficiente dos elementos políticos e culturais mais relevantes para a história. O destaque vai para os eldani, raça élfica bastante tolkeniana em sua ideia geral, mas cuja situação de escravidão e preconceito – semelhante à saga de Geralt de Rivia – bem como sua religião, relacionada à Grande Música, os tornam extremamente interessantes. Como um todo, a obra – e o leitor – teria se beneficiado com mais detalhes sobre Qran e seus elementos fantásticos.

Tendo mais ou menos ambientação, o fato é que Teatro da Ira é uma obra centrada em seus personagens. E nesse ponto, Diego Guerra fez um excelente trabalho. Os protagonistas são muito bem desenvolvidos e os coadjuvantes são bastante carismáticos. O autor consegue estabelecer muito bem as suas personalidades ao longo do livro e, embora não se possa dizer que algum deles tenha evoluído durante a história – com a notável exceção de Khirk, mais coadjuvante do que protagonista –, em vários momentos eles têm suas crenças testadas. Não existe explicação sobre a maioria dos personagens. Seus modos, crenças e personalidades vão sendo estabelecidos ao longo das páginas - causando um certo estranhamento quando surgem passagens em que o autor resolve descrever a personalidade um coadjuvante que tem menos importância. Mesmo assim, de longe, a construção dos personagens é o ponto alto dos livros.

No entanto, mesmo no quesito caracterização, é possível apontar algumas questões adversas. Apesar de ser bem construído e explicado, o maior protagonista da história, Jhomm Krulgar, por exemplo, segue muito o clichê do personagem turrão de fantasia sombria. Ele é violento, impiedoso, cruel - e tem motivos para ser tudo isso -, mas ainda assim, tem momentos de empatia e fragilidade, não muito diferente do emblemático Guts, do mangá Berserk. Não que isso seja ruim por definição, mas em alguns momentos, o esforço para mostrar Krulgar como o “berserker” animalesco que no fundo ele é acaba prejudicando os outros personagens e parecendo um tanto quanto forçado. Com Thalla, o problema é um pouco diferente. A jovem foi muito bem trabalhada por Diego Guerra, sendo um dos melhores personagens da obra. Contudo, conforme o livro começa a se aproximar da metade, ela começa a ter menos destaque, ao ponto de uma de suas cenas finais, que poderia ter sido fenomenal, ser apenas boa, devido a ter pouca preparação em momentos anteriores e comedimento com as descrições.

Teatro da Ira não é um livro perfeito, mas o material entregue por Diego Guerra é de uma qualidade invejável. A obra possui seus defeitos, mas eles são pequenos e pontuais, de forma alguma comprometendo a história que está sendo contada. Talvez o maior problema tenha sido uma tendência a deixar a obra mais enxuta e direta. Por si só, isso não é um porém, contudo, quando o que o autor tem a oferecer é de qualidade e o mundo fantástico que ele cria é criativo e interessante, o leitor mais perde do que ganha ao ser privado dos pequenos detalhes que colorem e transformam a história em algo único. No momento, o que falta para que a saga das Chamas do Império esteja entre as obras brasileiras de fantasia mais queridas e comentadas é o reconhecimento - que o autor ainda não recebeu.
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