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Avaliado no Brasil em 8 de novembro de 2019
Ah, o Natal! Uma data especial! Reunir a família, preparar aquela ceia de natal (com direito a arroz com passas), dar presentes, confraternizar. Sempre uma ocasião onde familiares se reencontram, e fingem, ops, e se abraçam. Alguns de nós odeiam essas velhas tradições e não suportam estar junto de determinadas pessoas. Inspirada pelo tema dos natais em família, Juliana Daglio cria uma história de ódio e rancor entre membros de uma mesma família. Quando as máscaras caem e tudo o que estava por trás é despertado.

Juliana Daglio tem uma escrita muito baseada no desenvolvimento de seus personagens. Pude constatar isso à medida em que passava as páginas. Aqui o cenário recebe bem pouca atenção. Ao colocar todos dentro de uma casa fechada, ela consegue se focar mais nos personagens e em como suas histórias se entrelaçam e colidem. A narrativa é em terceira pessoa visto de uma espécie de centro da casa onde todas as coisas acontecem. A narrativa é bem compassada, com uma estrutura bem clara de início, meio e fim. A autora bebe bastante da fonte de Stephen King, com os personagens sendo representados em tons de cinza. Não tem ninguém bonzinho aqui; todos possuem seus interesses.

A narrativa se centra na figura de Olegna, a avó que morreu há pouco tempo e deixou um vídeo gravado onde está posto o seu testamento. Os parentes se juntam em uma véspera de natal para assistir, imaginando se tratar de uma herança ou de alguma coisa de igual valor. Todos são surpreendidos quando Olegna revela o quanto odeia cada um deles pelo que se tornaram. Por conta disso ela fez um pacto com o diabo em que ele vai matar a todos, um por um até a meia-noite. Aqueles que estão na casa neste momento, estão trancados até o final do processo; quem não está na casa, está a salvo. Inicia-se um verdadeiro show de horrores que vai levar cada um a ponto da insanidade, onde todos os pecados são colocados em cima da mesa. E ela revela ainda que o diabo já matou alguém da família e se disfarçou usando seu corpo. Logo, um deles já morreu.

Para mim, os personagens são verossímeis e seus pecados são até bem comuns. Certamente vocês tem algum parente que é daquela forma. Seja Eliana, a menina porca e preguiçosa; ou Carlota, a velha religiosa moralista; João, o filhinho da mamãe incapaz de tomar uma decisão; ou Lúcia, a acumuladora que se finge de bondosa. A maneira como os problemas da família vão se acumulando para formar algo completamente caótico é progressivo. Começa com uma pequena faísca que vai crescendo e crescendo até se tornar uma enorme bola de neve. No começo, a gente imagina os Vieira como sendo uma família normal e até respeitosa um com o outro. Lá pela parte final da narrativa, os enxergamos como um bando de psicóticos e nos questionamos como eles conseguiam viver juntos. Na verdade, o que a Juliana fez foi simplesmente expor os segredos mais íntimos de cada membro da família. Colocar a todos em uma situação limite. Algo que King faz em livros como O Iluminado (no Hotel Overlook), em Sob a Redoma (na cidade de Chester's Mill) e O Nevoeiro (no supermercado).

Contudo, preciso apontar os problemas de revisão presentes no ebook. São muitos e são incômodos. Uma obra tão boa merece uma última revisada. Outro ponto que me incomodou foi o plot twist. Ele fugiu um pouco àquilo que a autora propunha inicialmente. Eu entendo que era para dar aquele momento "ha-há" de surpresa, mas acabou não funcionando bem. Me pareceu um atalho para evitar uma revelação mais profunda. A dinâmica entre os personagens é muito boa para não ser aproveitada. É preciso apontar também que eu achei a história curta demais. Tão curta a ponto de os acontecimentos parecerem forçados e encaminharem de forma artificial o roteiro para o final. As mortes precisavam ser um pouco mais paulatinas para criar um sentido de empatia do leitor com os personagens. Senti falta de um trabalho mais calmo. Umas trinta ou quarenta páginas extras teriam feito muito bem no todo.

Mesmo assim, a novella de Juliana Daglio foi uma das melhores obras de terror que eu li esse ano. Larissa Brasil prova mais uma vez possuir um belo domínio sobre a psiquê e o coração de seus personagens. Seguindo uma fórmula de sucesso inspirada por Stephen King, ela cria uma história aterrorizante sobre uma família que poderia ser a de qualquer um de nós.
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