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Avaliações dos clientes

28 de março de 2017
É o primeiro livro que terminei em 2017, e devo dizer que foi uma das maiores aulas de narrativa, trama, controle e sutileza que eu tive na minha vida. Nesse exato instante eu afirmo (talvez seja a empolgação, talvez não) que Steven Erikson é o escritor de fantasia mais talentoso que eu tive o prazer de ler. Mas espere, não entenda com isso que é uma leitura rápida e voraz, é exatamente o contrário. Jardins da Lua foi, de longe, a fantasia mais difícil que eu li até hoje e, pasmem, esse é um dos motivos pelo qual é tão boa.

A história gira, basicamente, na preparação e ataque à uma cidade. O Império Malazano, liderado no período do livro pela Imperatriz Laseen, deseja conquistar as últimas cidades livres do continente. Começamos o livro com a batalha por Pale e, durante o restante do volume, acompanhamos as tramas que cercam a conquista do Darujhistan, uma das maiores cidades do continente de Genabackis e próximo objetivo da imperatriz.

Assim que conheci um pouco mais sobre a obra, eu soube que ela nasceu de uma campanha de RPG jogada por (não apenas, imagino) Steven Erikson e Ian Esslemont. E, a cada cena narrada é possível perceber isso, a narrativa direcionada ao ponto de vista restrito dos personagens, as ações particulares e, algumas vezes, inesperadas, com resultados influenciados por dados. E, como um jogador (não tão ativo hoje quanto gostaria, infelizmente) e mestre, essa característica é gratificante.

Eu comecei a ler duas vezes, em dois momentos distintos de 2016, eu acho que estava com uma pretenção/expectativa torta do livro, pois no primeiro capítulo eu acabava por deixar de lado. Um dos motivos era o inglês, escrito com um virtuosismo (para mim, que desenvolvi na prática o inglês do segundo grau, era de um nível ainda distante) incrível, usando mais do que um vocabulário extenso, mas verbos e expressões raras que acabam por se tornar corriqueiras com o decorrer do livro. O outro motivo era eu mesmo, que tentava entender completamente a história conforme avançava. Na terceira tentativa eu apenas segui a leitura, abrindo mão de expectativas, principalmente. E devo dizer: que experiência fantástica.

Steven Erikson não se importa em levar o leitor pela mão nas suas histórias. Era uma característica que eu dizia existir em vários autores, parte da questão de não subestimar o público. Mas, depois de ter lido Jardins, eu tive a real noção do que é ser jogado em meio a uma história e tentar entender os pontos. Com explicações e informações sutis, escondidas em parágrafos aparentemente descritivos, Erikson força o leitor a construir o que consegue juntar da história e, mais de uma vez, o faz voltar uma, duas ou noventa páginas para meia dúzia de palavras que explicam um ponto crucial da trama.

A capacidade do autor de dividir as linhas narrativas, que vão se apresentando com o decorrer dos capítulos e acabam misturando e se misturando com os personagens, cada um com duas ou três linhas narrativas diferentes. Houve três tramas que se desenrolam desde o início do livro, mas que só fui entender e perceber plenamente quando estava nas últimas duzentas páginas do livro, tamanha a sutileza do autor.

Outra característica genial é a capacidade de manter um ritmo constante durante todo o livro, assim que narrativa se inicia, o ritmo vai aumentando, com os trechos de cada trama ficando mais curtos, diminuindo de seis para quatro páginas, e depois para três. E conforme avança, com a ampliação das tramas, divisão de grupos e separando os personagens, elas vão ficando mais rápidas, com trechos de meia página que fazem o leitor ir de um lado para o outro, mas o crescimento é tão natural que a leitura avança do mesmo modo que a escrita; fazendo com que devoremos as páginas para responder cada uma das nossas perguntas, e para cada linha atada, outros três questionamentos são jogados no ar.

A construção do mundo é outra pérola. Conforme avançamos, vamos tendo cada vez mais noção da grandiosidade do universo criado por Erikson e Esslemont, a mitologia criada é única, com deuses, rituais e religiões particulares; raças diferentes novas e extintas; tramas políticas escondidas dentro de outras tramas; uma história de centenas de milhares de anos, que aos poucos vai se apresentando e rascunhando em nossa mente.

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Então, você pensa que com essa linguagem rebuscada, trama complexa, e wordbuilding profundo e imenso, os personagens acabariam ficando de lado. Sinto lhe informar, mas Erikson está longe de decepcionar nesse ponto. Whyskeyjack, Ben Ligeiro, Dujek Umbraço, Piedade, Tattersail, personagens com tantas camadas que acabamos nos perdendo, envoltos pela personalidade de cada um deles – amando os defeitos e qualidades de cada um deles. Os diálogos pensados na característica de cada um, se há algum traço de nobreza, se tem passado militar, sotaques, manias, elementos aparentemente secundários, mas que trazem uma realidade ímpar a cada um dos personagens.

Eu acho que uma boa tentativa de explicar o livro, ou pelo menos a sensação que tive, foi a de ver um artesão trabalhando em um mosaico. Assim que ele coloca as peças é difícil entender o padrão, muito menos a imagem que ele deseja mostrar, mas aos poucos, bem aos poucos, vamos percebendo a imagem e a grandiosidade de tudo. A diferença é que Steven Erikson lhe entrega as peças nas mãos, para você (inexperiente) montar enquanto ele vai explicando a metodologia de modo técnico e profissional. Ah, e percebe-se algumas peças faltando, não tem os cantos, há algumas peças isoladas das outras e algumas que colocamos em um lugar diferente e só arrumamos muito tempo depois. Mas o prazer de quando vê-se a arte tomando forma, a grandiosidade daquilo, e a sua participação em ajudar a montar aquilo, é imenso. E, para mim, é aí que mora a genialidade de Erikson, na capacidade de reunir isso tudo num cenário absurdamente épico e com uma naturalidade assustadora.

Ah, e ele não tem dó de você. Nenhum. Em meia página ele me fez amar um personagem secundário, criou uma empatia ímpar, para na meia página seguinte matá-lo.

Minha noção de épico, de não subestimar o leitor, de ousadia literária e, principalmente, de narrativa firme e madura foram completamente atualizadas.

A Arqueiro teve uma coragem similar para trazer essa edição ao Brasil. Com um trabalho gráfico lindo e digno da série, com uma tradução apaixonada e competente da Carol Chiovatto, essa saga estreia no Brasil com chave de ouro, elevando o nível da estante de cada um dos brasileiros amantes de Literatura Fantástica.
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