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3 de janeiro de 2016
Desde a adolescência leio os irmãos Campos e o Boris Schnaiderman incensando o Isaac Bábel como a grande força do modernismo literário russo. Só que até agora era pouco o que se tinha dele em português. De modo que quando eu soube do lançamento deste volume de contos, originalmente publicado em 1931 e só agora traduzido diretamente do russo para nossa língua, me apressei a comprar.
Não me arrependi nem um pouco.
Talvez se possa traçar paralelos entre o estilo literário de Bábel e as técnicas de outros artistas que integram o que se costuma chamar de construtivismo russo, ou futurismo russo. Parece que o autor opta pela não linearidade das narrativas, usando técnicas de colagem, mais ou menos como Eisenstein faria para definir as técnicas que deram origem ao que hoje conhecemos como cinema.
Na verdade o livro de Bábel não é propriamente uma coletânea de contos, porque isso faz a gente pensar em histórias sem conexão entre si. Os contos de Bábel são inter-relacionados. Eu diria que fazem parte de uma mesma história, que aparece dos contos de forma fragmentária. Os personagens são os mesmos em todas as histórias, e segundo explica o tradutor no texto introdutório, eram em geral pessoas reais. O que dá um certo tom de reportagem aos escritos de Bábel (exceto que a forma narrativa não se parece nada com a narrativa jornalística linear).
Essa técnica de escrever vários contos sobre personagens que convivem entre si num mesmo lugar narrativo (no caso, um lugar real - a Odessa do início do século XX) é parecida com a que faz nos dias de hoje Amós Oz em seu Entre Amigos, apenas para dar um exemplo de como a técnica literária de Bábel continua moderna mais de 80 anos depois.
Outra comparação que acho pertinente, é com o livro Suor, escrito por Jorge Amado à mesma época. No livro do escritor baiano há vários personagens, mas eles não têm grande importância narrativa ou não lhes é dado o privilégio de engatarem suas vidas no enredo da narrativa. O personagem de Jorge Amado é um cortiço em salvador, e a coletividade de pessoas comuns, pobres. Do mesmo modo, o personagem de Bábel é só um: a Odessa dos cortiços e dos guetos, dos rabinos, comerciantes e mafiosos, dos administradores revolucionários, dos soldados, dos marinheiros.
O texto de Bábel mostra a força que a experiência dá à literatura. Alguém que viveu numa cidade tão ricamente diversificada como a "Marselha" russa, não deixaria de ser impactado por isso.
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