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17 de outubro de 2017
Em 2017, a Academia Real Sueca, mais uma vez concedeu o Prêmio Nobel para um escritor que não estava entre os favoritos. Se a notícia gerou surpresa, não causou a mesma polêmica da escolha de Bob Dylan no ano anterior. O nipo-britânico Kazuo Ishiguro é um ficcionista de expressiva reputação que, curiosamente, desejava ser músico antes de optar pela carreira literária. Ele também é o único premiado que já realizou um curso de escrita criativa, neste caso, na East Anglia University.

Lançado em 2015, “O Gigante Enterrado” é seu sétimo e mais recente romance. Ambientado há 1500 anos, numa Inglaterra onde a população vive ao lado de monstros e criaturas mágicas, sua história tem como fulcro narrativo o papel seletivo da memória, ao questionar a importância de manter algumas lembranças esquecidas.

Seus protagonistas são Axl e Beatrice, um casal de velhinhos em busca de um filho que não se lembram como é, onde mora e se realmente existe. Entretanto, esta dificuldade não é só deles, todos seus conhecidos não se recordam de boa parte do passado e, ao que tudo indica, a responsável é uma misteriosa névoa que se estende pela região.

Em linhas gerais, a difícil jornada que ambos têm pela frente entrelaça várias histórias paralelas e reúne personagens fascinantes, como Gawain, um cavaleiro bretão que sabe mais do que conta, Wistan, um guerreiro saxão a serviço do rei, e Edwin, um jovem ferido por um monstro.

Tamanha sua profundidade, este romance não se esgota numa primeira leitura e há muito a ser estudado, pesquisado e debatido a seu respeito. Seu próprio título exibe um caráter metafórico, visto que, a primeira vista, sugere uma terra habitada por gigantes, todavia, além da primeira camada textual, este gigante pode simbolizar velhos ódios que estão prestes a se reerguer.

De acordo com Ishiguro, a narrativa “trata de coisas que escolhemos esquecer na hora de formar uma sociedade, ou de construir um relacionamento longo. Não existe relação humana possível que não tenha gigantes enterrados no quintal".

Por sinal, sua história apresenta interessantes referências literárias e mitológicas, por exemplo, Wistan remete a Beowulf e um barqueiro, a Caronte. Transitando entre a fantasia e o lirismo, ela é também bastante singular, pois caracteriza-se pelo ritmo lento, a atmosfera melancólica e protagonistas que, combalidos pela idade, não tem o mesmo vigor e a força do protótipo do herói.

Para finalizar, este é um romance aberto a interpretação, convidando o leitor a refletir sobre temas universais, como o amor e guerra, e outros atuais, o ressurgimento do nazismo e a questão dos refugiados. Ele poderá não agradar quem procura uma leitura leve, pois Ishiguro propõe questões difíceis e respostas que incomodam. Como sugestão, recomendo o comentário de Neil Gaiman que, publicado no New York Times em 25/02/2015, está disponível na internet.

Nota: Com boa tradução e revisão, adquiri o ebook que, com índice ativo, correspondeu ao esperado.
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