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7 de agosto de 2018
A novela 'Tonio Kroger' apresenta os incansáveis dilemas psicológicos que acometem os autores que se propõem a analisar a psique humana. É fantástico ver como Thomas Mann introduz um personagem que leva os questionamentos à sua função como artista a novos patamares.

Impressionou-me, sobretudo, a opinião que Tonio Kroger sustenta sobre o fazer artístico: isto é, a de que a análise da realidade pressupõe um distanciamento e quase isolamento do autor, a fim de retratar a natureza e o comportamento humano sem, de fato, senti-los em primeira pessoa. Apesar de não concordar inteiramente com essa perspectiva, foi-me muito intrigante refletir sobre as características não necessariamente da arte, senão do artista em si.

O isolamento de Tonio Kroger é, também, um isolamento social e racial, uma vez que suas características físicas diferem daquelas do 'alemão comum'. É interessante, entretanto, que essas diferenças não são sempre tratadas por Tonio como incômodas e sofríveis:

"Assim era Hans Hansen, e, desde que Tonio Kröger o conhecera, sentia ciúmes assim que o via,
uma nostalgia invejosa, que se aninhava acima do peito e ardia.
“Quem me dera ter olhos tão azuis”, pensava, e viver em harmonia e em feliz comunhão com
todo o mundo, como ele! Sempre está ocupado de maneira digna, respeitada por todos. Quando ele
termina suas lições de casa, toma aulas de equitação ou faz algo com a serra de trabalhos manuais, e
mesmo nas férias à beira-mar o seu tempo é ocupado em remar, velejar e nadar, enquanto eu fico deitado
na areia, ocioso e perdido, de olhar fixo para o misterioso e mutável jogo de expressão que desliza sobre
a face do mar. Por isso seus olhos são tão límpidos. Ser como Hans... — ele não tentava tornar-se como
Hans Hansen, e talvez, intimamente, este desejo não fosse levado muito a serio por ele. Mas ansiava,
dolorosamente, ser amado por Hans assim falho como era, e para isto cortejava-o à sua maneira. Uma
maneira lenta e amorável, dedicada, sofredora e melancólica, porém de uma melancolia que pode arder e
consumir mais profundamente do que todas as paixões, o que seria mais de se esperar de sua aparência
estrangeira."

Observa-se, nessa mesma dicotomia entre alemão e estrangeiro, o caráter autobiográfico da obra. Afinal, Mann era descendente, por parte materna, de brasileiros.
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