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19 de dezembro de 2015
Isaac Bábel (1894 - 1940) é um dos escritores com uma das biografias mais interessantes de toda a história russa. Nascido durante o período czarista, Bábel teve sua formação em tal regime e se tornou apoiador da Revolução de 1917, inclusive se tornando amigo pessoal do mais prestigiado autor pelas autoridades soviéticas, Máksim Górki, e trabalhando para a vital Tcheká, a polícia política da época. Porém, foi traído pela própria revolução que apoiou e condenado ao fuzilamento durante o governo de Stálin, com a ordem sendo executada em 1940. Catorze anos depois, em 1954, foi inocentando das acusações e suas obras foram republicadas. Mesmo assim apenas com a queda da URSS que sua obra completa pôde ver a luz do dia. Não bastasse isso, cresceu numa família judaica que obrigava o ensino religioso nele e viveu numa das regiões onde os judeus eram permitidos no Império Russo - sendo que os judeus eram uma das etnias mais discriminadas e desrespeitadas neste período.

Esta coleção se foca mais no segundo aspecto biográfico que citei: a vida da comunidade judaica de Odessa, onde cresceu Isaac Bábel. Os contos me lembraram particularmente de dois filmes: "Amarcord" (1973), de Federico Fellini, pelas recordações autobiográficas do período de formação dentro de uma comunidade onde todos se conhecem; e "Os Bons Companheiros" (1990), de Martin Scorsese, pela retratação interior de como se organiza e opera a vida de gângster, com uma visão ambígua de celebração e fascínio junto de seus pontos negativos. Isso também expressa os dois pontos que se focam os contos: as memórias do local pelo autor e o retrato do crime organizado pelos marginalizados judeus (paralelo, em suas devidas proporções, dos ítalo-americanos dos filmes de Scorsese).

As habilidades literárias de Bábel também são admiráveis. O autor possui estilo jornalístico, com narrativas curtas, que se complementam, são compactas e geralmente objetivas, porém alia esse aspecto com aquele de escrever como a comunidade fala, utilizar suas expressões, colocar marcas de oralidade como a repetição enfática, realizar cortes bruscos, apresentar imagens repentinas. Dessa forma a observação precisa e jornalística do narrador se alia com teores mais literários, o que dá maior riqueza, aprofundamento e durabilidade para as histórias. Não se trata apenas de estar no lugar certo na hora certa, mas sim da pessoa certa no lugar certo na hora certa. Esta coleção de contos de Isaac Bábel certamente se trata de uma das mais preciosas obras da literatura russa.
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