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50 PRINCIPAIS AVALIADORES
15 de julho de 2018
Um romance escrito por um matemático. Já viram isso? Concebem a estranheza de tal coisa? Deixe-me ver... Primo Levi e Canetti foram químicos (o primeiro trabalhou isso em sua obra, o segundo confessava abominar quando passava de frente à antiga faculdade). Na história da literatura, talvez esse seja o único caso de um homem das ciências exatas a escrever uma grande obra, uma das maiores obras da literatura. E todo o livro contêm uma prosa maravilhosa e única em que apresenta a constância da análise espiritual com a abstração totalizadora da matemática. Ulrich, o herói, tece ensaios sobre a indústria cultural, sobre a história, onde o que mais aparece é sua compreensão de que na modernidade (o tempo é o pré-primeira guerra) cada vez é mais difícil às pessoas terem uma alma. As reflexões de Ulrich, apresentadas em terceira pessoa, são tão belas e profundas quanto o melhor de Nietzsche. Essas reflexões, tecidas durante as andanças de Ulrich por Viena, compõem várias das páginas mais bem escritas da literatura dos últimos cem anos. No meu entendimento, esse é o suprassumo, o ápice, dos romances-ensaios, gênero que detêm os melhores trabalhos de escritores como Thomas Mann, Philip Roth, Saul Bellow, Saramago, etc. Os que quiserem fazer um test-drive, leiam o capítulo 72, intitulado "O dissimulado sorriso da ciência, ou primeiro encontro detalhado com o mal" e me digam se não é impossível não ficar cativado pelo poder das palavras de Musil. É difícil resumir o livro, mas aventuraria em dizer que se trata de personagens em diversos graus comprometidos com a necessidade de terem uma alma. Desde Ulrich, um matemático ultra-inteligente que se nega a ter as qualidades requisitadas pela sociedade da vida que se exibe_ um dos personagens mais livres da literatura (o fato de ser matemático não o faz cair na pobreza conceitual de liberdade-clichê do existencialismo e das demais escolas da depressão requintada)_; Arnheim, o rival intelectual de Ulrich, um empresário multi-milionário com sofisticadas ideias sobre a redenção neo-liberalista do homem, para quem todo o progresso anunciado no século é motivo de otimismo sobre os bens a serem colhidos para a humanidade (as más línguas dizem que Musil tomou Mann emprestado para criar este personagem)_ Arnheim também é responsável por capítulos extraordinários de reflexões contrárias às de Ulrich; até personagens díspares mas imortais, como o assassino no corredor da morte Moosbrugger, e as quatro mulheres com quem Ulrich se envolve. São personagens que trazem esse vínculo em comum: a procura pela legitimidade de uma alma, habitando um mundo no qual a destruição de todos os valores e a revelação de algo monstruoso e intolerável está para acontecer, um mundo que também busca desesperadamente por um significado, uma direção. Em todo o romance, os personagens estão empenhados na construção de uma liga mundial sedimentada na cultura germânica, chamada Ação Paralela, organização em que se revela ainda mais o vazio e o engano que são as reais forças a conduzirem a sociedade. Apenas Ulrich, em seu isolamento cerebral, se conserva íntegro, em um novo estoicismo. O homem sem qualidades é um dos maiores e mais deliciosos romances de qualquer tempo.
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