Avaliações dos clientes

Avaliado no Brasil em 2 de junho de 2019
Analisar clássicos da literatura é uma tarefa complicada, pois geralmente são obras que já se falou tudo o que é possível sobre as próprias. Orwell escreveu um pequeno clássico que me aparenta ter se entranhado na memória coletiva do discurso político especificamente por falar de conceitos universais.

A começar pela ambientação. Orwell detalha não apenas os prédios e estruturas vigentes, que se encontram em um lugar comum entre o imaginário recorrente à revolução industrial e o fascismo, mas detalha também o clima vigente. A sensação de absorção do indivíduo para com o cenário, retirado completamente de sua individualidade para pertencer ao todo, é, ao meu ver, a maior força do livro. O medo recorrente dos personagens, a paranoia instituída pela onipresença do estado e a constante violência são imagens vívidas.
Segundo, os personagens. Com exceção do protagonista, são insossos e clichês. Winston Smith, o protagonista, é um indivíduo que se acostumou com o sistema vigente, apesar de suas incansáveis teorizações mentais de como seria viver fora desse sistema. É a partir dele que a história é contada; todos os eventos ocorridos no livro, apesar de serem narrados em terceira pessoa, são contados com base em Winston. Depois de conhecer Julia, uma romântica que fantasia com a derrubada do governo através de atos de rebeldia, Winston se engaja em um romance que pode colocar a sua "pacata" vida de funcionário público a um fim trágico.
É nas cenas protagonizadas pelos dois que o livro desanda. Me parece uma fantasia de um adolescente se rebelando contra os pais, com o(a) namoradinho(a) problema que seria uma maneira esdrúxula de os provocar. Os diálogos são risíveis, aparentando ter sido escrito por uma moça adolescente que tem como algoz, não os pais, mas o estado. Isso gera uma tonalidade antagônica com o descrito em outras partes do livro, e que tira a urgência e peso do ambiente descrito.
Terceiro, e o grande trunfo do livro, as "previsões". A novilíngua, o dupilpensamento e o grande irmão, são conceitos que são recorrentes no discurso político atual, sendo utilizados tanto à esquerda como à direita do espectro político. O apelo desses conceitos, e a origem deles, se dá não por uma capacidade suprema de previsão do autor, mas sim por uma análise de fenômenos ocorridos em seu tempo. Novilíngua (a substituição e simplificação da linguagem visando uma limitação e direcionamento do pensamento), duplipensamento (a capacidade de pensar duas coisas contraditórias ao mesmo tempo, crendo que as duas são verdadeiras) e o grande irmão (entidade [quase no sentido esotérico] governamental que vigia a sociedade de maneira onipresente) são todas baseadas em ações encontradas nas políticas da U.R.S.S., Itália fascista e Grã-Bretanha do tempo de Orwell e disseminadas consciente e inconscientemente no imaginário daqueles que almejam o poder. Orwell não profetizou, Orwell observou.

A edição (1ª edição, 39ª reimpressão) conta com com três posfácios, escritos um por Erich Fromm, um por Ben Pinlott e outro por Thomas Pynchon. Recomendo o livro, mas não sei se pelas minhas altas expectativas, me decepcionei com a incongruência de tonalidade da trama.
2 pessoas acharam isso útil
0Comentar Informar abuso Link permanente

Detalhes do produto

4,9 de 5 estrelas
4,9 de 5
4.206 classificações globais