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20 de novembro de 2018
Os vampiros são uma das criaturas sobrenaturais mais amadas no mundo da literatura e dos quadrinhos. Sempre houve histórias interessantes o mito do vampiro e em como ele transforma o homem. Nos últimos tempos ele se tornou algo mais ligado à cultura pop e adotou outras feições que divergem bastante da criação de Bram Stoker e posteriormente da releitura feita por Anne Rice. J.M. DeMatteis é alguém que bebe bastante dessa linha original do mito e constrói nas quatro edições de Blood que saíram por diferentes editoras, uma história de busca pelo significado da própria existência, dos desafios impostos pelo amor e do eterno retorno. Blood é uma história repleta de simbolismos e significados que vão estimular o leitor a fazer diversas releituras e a cada uma delas ele vai encontrar um sentido diferente para a história.

A edição do Pipoca & Nanquim pode, sem dúvida alguma, ser considerada A edição definitiva do quadrinho. Uma capa belíssima, única no mundo todo, com o título naquele vermelho vivo, cor de sangue que dá todo um sentido ao que a história propõe. Aliás, se eu posso falar da capa e da escolha dos editores do Pipoca é que ela é muito coerente com o que o autor vislumbrou para a narrativa. A própria capa é uma sinopse da história que o leitor irá encontrar. Houve um cuidado até com a lombada que simula o sangue escorrendo. No interior, temos um prefácio escrito pelo próprio autor para a edição brasileira e ao final uma bela galeria de capas que também é inédita. O papel é couché e de alta gramatura. Até com a guarda houve um cuidado editorial para usar alguma ilustração bacana. Novamente o Pipoca & Nanquim consegue entregar ao leitor uma edição belíssima, digna de colecionadores.

A escrita do DeMatteis em Blood é bela. Puxando bastante da escrita mais poética e revestindo cada quadro com inúmeros significados, ele nos entrega uma narrativa que vai parecer bem difícil para aqueles que estão conhecendo a sua obra pela primeira vez. Aliás, sequer recomendo começar a ler o DeMatteis por Blood. Se for o caso, deem uma passada antes em A Última Caçada de Kraven para se acostumar com a forma narrativa empregada por ele e depois retorne aqui para apreciar melhor o que ele apresenta ao leitor. Muitas vezes vai ser necessário retornar algumas páginas para tentar pegar algum sentido ou significado escondido nas entrelinhas. Essa é uma daquelas obras que o leitor não vai conseguir entender tudo na primeira leitura, necessitando retornar depois e absorver melhor as frases e sentidos. Até porque Blood é uma leitura mutante, que vai fornecer novos significados caso o leitor faça uma releitura daqui a alguns meses ou anos. Ler Blood é uma jornada de autoconhecimento e isso fica bem claro a cada novo capítulo.

"Eles conversavam sem cessar (exceto nas horas de luz, quando ficavam mais fracos do que palavras podem descrever, deixando o silêncio falar com mais propriedade), ele compartilhando os segredos da caverna, do Monastério, do Vale da Dor; ela contando fábulas elaboradas sobre a sua própria vida antes de os Vampiros a tomarem. ("Lembro pouca coisa, na verdade", ela confessou uma noite, "então teço para você mentiras mais verdadeiras que a realidade.")

A arte do Kent Williams é toda pintada fornecendo um ar único à narrativa. Os quadros pintados combinam muito bem com o roteiro do DeMatteis. Se formos pensar direito, Blood não é uma história de terror como estamos acostumados, com sustos e pavor, mas algo mais gótico. Traz todo um clima de decadência e maldição, onde os personagens estão presos por conta de uma vida eterna que torna tudo muito perene. Os anos perdem o sentido para Blood e a Mulher. Se formos analisar a arte do Kent Williams vamos ver que ela passa de um branco gelado para um vermelho fogo com o passar dos capítulos. Quando Blood se une à Caravana no final, os quadros são na cor laranja ou vermelha com várias páginas duplas. O artista tem uma construção bem diferente dos quadros adaptando-os de acordo com o que ele quer simbolizar para a história. Sejam poucos quadros para apresentar um ambiente amplo ou muitos quadros para ilustrar uma discussão entre os personagens, a quadrinização serve como complemento ao roteiro. Até o letramento é muito bonito e o leitor consegue ouvir as onomatopeias (o doom, doom, doom constante quando eles são perseguidos entre outros sons). Ou seja: coloque sonoridade junto às belas imagens fornecidas por Kent Williams.

O mito do eterno retorno está muito presente nesta história. Criado pelo estudioso das religiões Mircea Eliade, este é um mito que explica que o universo funciona como uma cobra mordendo o próprio rabo. Muitos mitos antigos se baseiam em uma figura mitológica realizando um retorno para cumprir algo que foi deixado para trás ou até para repetir as mesmas ações em um ciclo que se repete indefinidamente. Blood é justamente isso, e não à toa um dos símbolos empregados na narrativa é o Ouroboros, ou seja, a própria ideia da cobra que eu citei acima. Blood está perseguindo o que ele significa para o mundo e esta é a busca que todos nós fazemos ao longo da vida e nem todos nós descobrimos. Ele começa sendo uma criança abandonada e é criado por uma mulher até ir parar em um monastério. Lá ele aprende uma doutrina da qual, à medida em que cresce, não concorda. Ele se descobre incapaz de suportar o status quo daquele lugar e acaba por se rebelar. Sua transformação para um vampiro simboliza a sua revolta contra a sociedade.

" - Achei que eu fosse o professor! Mas você... você sente. Você sabe de uma forma que eu nunca saberia! E nunca saberei!
- Mas você me ensinou, de fato! Agora ensine a si mesmo!
- Não consigo!
- Sim, você consegue! Você consegue!

A história é repleta de muito erotismo. Isso vai muito da tradição do vampiro com um ser sedutor e sensual, representante direto dos instintos de luxúria do ser humano. Mas, ao mesmo tempo, podemos entender a nudez dos personagens de uma outra forma: eles estão nus e desprotegidos, à mercê de seus perseguidores. Ao se descobrirem eles revelam seus lados mais secretos e sombrios ao parceiro; ou seja, não existem segredos a ser revelados porque eles não mais existem. Seus sentimentos estão completamente desnudos e à vista e todas as suas reações são extremas. Apenas quando Blood se perde é que vamos vê-lo se cobrindo e alcançando um outro estágio de sua vida. É uma bela metáfora se formos parar para pensar.

Vou parar por aqui porque uma das graças deste quadrinho é simplesmente o descobrir novos significados. Existem muitos outros e convido os leitores a discutirmos esse quadrinho tão rico e simbólico. Uma bela obra de arte de J.M DeMatteis e de Kent Williams. Um nos apresenta um roteiro top de linha, com significados por trás de significados enquanto o segundo presenteia os leitores com uma arte pintada e que dialoga muito bem com o roteiro ao complementá-lo.
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