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Avaliação de clientes

4,5 de 5 estrelas
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100 PRINCIPAIS AVALIADORESem 15 de dezembro de 2017
O livro integra uma coleção em três volumes dedicada ao estudo do período colonial e abrange os anos de 1443 e 1580, embora vários ensaios explorem questões que ultrapassam esses marcos. 

No ensaio introdutório, o historiador João Fragoso, um dos organizadores da coleção, conta-nos que o projeto teve como principal mentora a brilhante historiadora Maria de Fátima Gouvêa, falecida em 2009, durante a produção do livro. A coleção é marcada pela diversidade de abordagens e pontos de vista, procurando trazer ao público leitor "o estado da arte de diferentes temas" relacionados à América portuguesa (Loc. 201). Mais que apenas apresentar a obra, o ensaio inicial de João Fragoso aborda diversas questões de grande interesse para a historiografia: o debate Brenner, as motivações da empreitada colonial, as estruturas político-juridicas do Estado do Antigo Regime, as comunicações entre colônia e metrópole e sua utilidade para a investigação da dinâmica do Império português, entre outros. 

A primeira parte da obra, denominada "Histórias do Brasil ",  abre com um penetrante ensaio de Hebe Mattos sobre os lugares da escravidão na vasta produção historiográfica sobre a colonização portuguesa, desde Varnhagen e Capistrano de Abreu até as tendências e publicações mais recentes. A autora mostra como a historiografia sobre a escravidão se relacionou ao longo do tempo com diferentes visões acerca da nacionalidade brasileira, algumas delas muito excludentes. 

O segundo ensaio, de Jean-Fredéric Schaub, professor da École des Hautes Études en Sciences Sociales, aborda as raízes medievais da expansão europeia, aí incluindo a portuguesa. Tais raízes, argumenta o autor, remontam pelo menos ao século XIII, quando se dá a "consolidação das estruturas dos países europeus graças à dinâmica da expansão e às práticas de perseguição coletiva" (Loc. 2442). A contextualização da expansão portuguesa no quadro das dinâmicas europeias mais amplas é muitas vezes negligenciada em manuais de História, e por isso li esse ensaio com muito interesse.

O capítulo 3 traz ensaio de António Manuel Hespanha e José Manuel Subtil, que dispensam apresentações para os interessados nos estudos acadêmicos do Brasil colonial. O ensaio explora a fundo os modelos de governo do Antigo Regime, notadamente do português, mapeando o desenvolvimento do corporativismo e a transição deste para o Estado de polícia no final do século XVIII. Para quem se interessa por teoria política e pelos meandros do exercício do poder estatal na metrópole e nas colônias, trata-se de estudo fascinante. Os autores mostram que o poder central do Estado português era muito mais limitado e precário do que muitas vezes imaginamos. 

O professor João Pacheco de Oliveira contribui com um ótimo ensaio crítico sobre os indígenas na fundação da colônia, tratando de temas como agência e encontro colonial. Depois de fazer um breve resumo crítico da história dos povos indígenas do Brasil, o autor apresenta um quadro teórico para a abordagem do tema, procurando estudar os atores situações em suas interações concretas e não como "simples joguetes de princípios abstratos e de interesses materiais" (Loc. 3811). O autor nos lembra de que "a administração colonial portuguesa operava dentro de esquemas bem menos centralizadores" do que a ideia de monarquia poderia sugerir e enfatiza que "os missionários, moradores e administradores estavam inseridos dentro de uma densa teia de relações de interdependência" (Loc. 3818). As populações autóctones, pensadas como "integrantes efetivas do encontro colonial" (Loc. 4112), seriam assim atores sociais com diferentes participações nos modelos de distribuição de poder a que o autor chama de "situações históricas" (loc. 4124). As três situações históricas sugeridas pelo autor são o regime de feitorias, a guerra de conquista e a plantation escravista. 

De Manolo Florentino, historiador que também dispensa apresentações e cuja obra influenciou e continua a influenciar profundamente a historiografia brasileira, vem-nos um ensaio dedicado ao estudo do tráfico negreiro no período de 1500 a 1800. Aliando dados quantitativos a abordagens teóricas qualitativas que privilegiam a complexidade dos contextos da escravidão dentro e fora da África, o autor consegue sintetizar criticamente um enorme volume de informações. Acredito que o ensaio será especialmente útil para aqueles que procuram um conhecimento mais profundo e atualizado da história da África nesses séculos cruciais da expansão do tráfico. 

Na sequência, o ensaio de Mafalda Soares da Cunha direciona o foco para a Europa e busca dar um panorama mais concreto da expansão atlântica, em que frisa a necessidade de "devolver às sociedades europeias dessas épocas seu caráter menos regulado, menos previsto e eminentemente mais casuístico e plural dos processos de decisão que condicionaram o devir histórico" (Loc. 5948). Se isso torna o objeto de estudo mais complexo, também enriquece nossa compreensão sobremaneira, precavendo-nos contra generalizações simplistas e esquemáticas.

A parte III, intitulada Economia e Sociedade, abre com um ensaio da professora Elisa Frühauf Garcia sobre as alianças e os conflitos protagonizados por índios, autoridades, colonos e missionários. A autora estuda, entre outros assuntos, o modo como os índios participaram das trocas de mercadorias ao longo do tempo, o papel da mão de obra indígena na sociedade colonial e os conflitos e alianças em que se envolveram.  

No capítulo 8, Ronaldo Vainfas estuda a mestiçagem cultural, começando por Gilberto Freyre e Sérgio Buarque, passando por Nathan Wachtel e chegando a Serge Gruzinski. De posse desse arcabouço teórico sólido, o autor passa então a analisar séculos de interações entre povos de diferentes  culturas no Brasil, enfatizando a complexidade e a especificidade de situações concretas de mestiçagem cultural. O Bacharel de Cananeia, João Ramalho, Aleixo Garcia e os jesuítas são alguns dos mediadores culturais estudados pelo autor de modo instigante e esclarecedor. 

O ensaio de Andrea Daher explora as condições de produção e circulação de alguns dos primeiros relatos e documentos sobre o Brasil colonial. Entre os escritos estudados estão os relatos de Jean de Léry e André Thevet, a História de Pero de Magalhães Gandavo e os autos, diálogos e catecismos dos padres jesuítas. Mais que abordá-los pelo seu possível valor testemunhal, a autora perscruta antes as funções que tais escritos cumpriam e que tipo de edição e circulação tiveram. 

Maria Regina Celestino de Almeida oferece um excelente ensaio sobre as formas como os índios se inseriram na colonização, levando em consideração seus diferentes interesses e motivações. A autora ressalta que atualmente "os estudos interdisciplinares tendem a priorizar as ideias de apropriação e ressignificação cultural, valorizando não apenas as atuações, mas também os interesses e possíveis significados que os povos indígenas atribuíam às mudanças por eles experimentadas" (Loc. 9595). O que os documentos revelam, conta-nos a autora, é "que os índios, apesar dos imensos prejuízos e da posição subalterna na qual ingressavam nas aldeias, interessaram-se por elas, participaram de sua construção e foram sujeitos ativos dos processos de ressocialização e catequese nelas vivenciados" (Loc. 9602). A autora, portanto, não negligencia o "contexto de extrema violência e desigualdade" (Loc. 9680) em que o aldeamento se dava, mas busca também valorizar a atuação e os interesses dos próprios índios, vistos em sua complexidade de sujeitos históricos confrontados com realidades difíceis e em rápida transformação. 

O que era a Inquisição portuguesa? Sobre quem ela autou no Brasil Colonial? Quais as formas de religiosidade que se manifestaram na colônia? Essas são algumas das questões abordadas no capítulo 11 por Georgina Silva dos Santos e Ronaldo Vainfas. As santidades, os calundus, a mandinga, as práticas dos chamados cristãos novos, a intimidade dos devotos com os santos católicos, os mosteiros e conventos, tudo isso e mais é tratado de modo crítico e sucinto pelos autores. 

O último ensaio é de Francisco Carlos Cosentino e trata das instituições do Império ultramarino e das relações entre o centro e a colônia, desde os primeiros arrendamentos até o governo geral. Dada a vastidão do território colonial e a insuficiência da estrutura administrativa portuguesa para controlá-lo, o resultado, esclarece o autor, foi a "adoção de soluções políticas heterogêneas e plurais, na qual predominou uma estratégia de experimentação: administrava-se conforme as necessidades, as dificuldades e os problemas" (Loc. 11341). Um ponto de especial interesse no ensaio é o detalhamento com que se analisam instituições que, às vezes, são tratadas apenas de modo vago nos manuais, como as capitanias hereditárias. 

Destaco que essa é apenas uma resenha muito sumária dos excelentes ensaios do volume. Procurei somente destacar alguns pontos da minha leitura, compartilhar minhas impressões. A meu ver, a obra é excelente e, nada obstante a diversidade, tem como nota comum a valorização dos sujeitos históricos; o respeito pela pesquisa empírica e pelas especificidades do passado; o olhar atento para a complexidade das realidades coloniais e das relações entre metrópole e colônia; e a tentativa de tornar os avanços da pesquisa compreensíveis também a não-historiadores. 

Por fim, não achei nenhum problema na versão Kindle, que me agradou muito. Recomendo, portanto, a leitura!
6 pessoas acharam isso útil
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em 22 de janeiro de 2018
Produto conforme descrito pelo vendedor, o estado do livro é bom e o atendimento foi satisfatório.. Recomendo aos que se interessem. Att. Guilherme.
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em 17 de maio de 2018
Excelente organização e um livro bem consistente. Ótimos autores escolhidos, serve demais para os pesquisadores em história do Brasil colônia
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em 31 de janeiro de 2016
Muitos livros sobre a história do Brasil, mesmo quando abrangem todo o período desde a sua descoberta até períodos mais recentes, tendem a ficar progressivamente focados nos momentos mais atuais da história. Este livro de fato detalha bem a história do Brasil no período em que ele se propõe a analisar. Muitas perguntas que veem à mente do leitor curioso quando ele pensa a respeito do início da colonização do Brasil são respondidas: Dentro da sociedade portuguesa, quem foram aqueles que vieram a povoar esta terra que não possuía uma infraestutura desenvolvida como em Portugal? Dado que os jesuítas condenavam a escravização dos índios, em que ocasiões estes vieram a ser escravizados? Como foi superada a barreira da língua? Como se criava uma oferta de escravos vindos da África e qual era a participação de Portugal na criação dessa oferta? Dado que a exploração das terras do Brasil começou a chamar a atenção de outros países europeus, como foi que os portugueses fizeram para defender suas conquistas? Apesar de perguntas como essas serem muito bem respondidas, outras perguntas carecem de maior esclarecimento. Por exemplo: Por que os jesuítas, com o apoio da coroa portuguesa, defendiam a não escravização dos índios mas não se opunham a escravização dos negros? Qual era o nível de sofisticação em termos jurídicos e de relações internacionais que garantiam a Portugal (e Espanha) autoridade sobre os territórios recém descobertos? Como, e até que ponto, os contratos normalmente firmados à época eram respeitados? Como naquela época estes e outros aspectos não eram tão evoluídos como nos dias de hoje, o leitor curioso tende a se indagar sobre isso.

Um ponto negativo do livro que pesa bastante é a ausência praticamente completa de mapas. Muitos aspectos geográficos são tratados sem o auxílio qualquer de mapas. No início do período colonial o território do Brasil esteve em constante expansão e sua divisão político-administrativa também sofreu bastante alterações. Mas nada disso é ilustrado por meio de mapas. Dada a facilidade existente de se construir mapas hoje em dia (veja, de fato, o sítio eletrônico http://programminghistorian.org/), a presença de mapas aumentaria grandemente o valor do conteúdo do livro.

O livro é uma coletânea de capítulos escritos por muitos autores. Logo, ganha-se em termos de profundidade em cada assunto abordado. Por outro lado, perde-se em termos fluidez ao longo dos capítulos como quando se lê um livro escrito por somente um autor. O livro, mesmo sendo escrito por vários autores, poderia ter um pouco mais de fluidez do que aquela verificada no livro. Além disso, alguns capítulos parecem sofrer de um pecado comumente comentido por especialistas da área de ciências humanas: o conteúdo não é escrito para outros, mas para si. Existe capítulo comparando de forma tediosa obras antigas entre si e há capítulo que faz citação (excessiva) de trechos em um português antigo (que não possui regras gramaticais e de ortografia ainda bem consolidadas). Isso, às vezes, torna a leitura desmotivante.
24 pessoas acharam isso útil
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