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Avaliado no Brasil em 27 de setembro de 2021
Em seus onze capítulos, com mais de 500 páginas, o autor faz uma descrição assustadora (para quem não é familiarizado com o tema) da vida nas prisões. A leitura é surpreendentemente agradável para um livro derivado de uma tese de doutorado. Para minha (agradável) surpresa, desde que comecei o livro, não consegui parar de ler até finalizá-lo.

O autor faz uma descrição 'nua e crua' do cotidiano de uma cadeia pernambucana (Complexo Penitenciário do Curado) e do sistema judiciário em geral. Mais especificamente, ele explora a ideia de governança dentro de uma cadeia. Com este objetivo, o autor faz uma descrição cuidadosa dos diversos atores envolvidos nas relações de poder dentro da cadeia, analisando a não-trivial teia de relações entre eles.

Central em sua análise é a figura do 'chaveiro', um detento que, por motivos diversos, detém o poder não só de abrir ou fechar celas, mas também de realocar diversos recursos escassos em uma prisão. Sua atuação é uma versão encarcerada do 'leiloeiro walrasiano' dos estudos econômicos (o autor não usa este termo, mas é exatamente o que se depreende da leitura do ótimo livro).

É interessante observar o complexo jogo das trocas econômicas na cadeia, seus diferentes mercados (até mesmo algumas estimativas de preços!), os atores envolvidos e os arranjos de direitos de propriedade existentes em um texto muito agradável de se ler.

Outro tema - dentre vários - do livro que me chamou a atenção foi a análise do mercado de drogas na prisão. O autor detalha aspectos que diferenciam as possibilidades de trocas ilegais. Foge da discussão superficial sobre 'liberar ou não o mercado de drogas' para mostrar ao leitor, antes de tudo, como a violência pode ou não emergir sob diferentes arranjos ambientes (físicos mesmo!) de uma prisão.

De fácil leitura, a despeito do tema denso, é um livro que pode ser usado como complemento em um curso de Economia, mostrando diversos problemas relacionados à alocação de direitos de propriedade em um mercado, digamos, atípico. O próprio autor faz referência explícita ao termo 'direitos de propriedade', aliás.

O autor destaca corretamente os limites do alcance de suas conclusões, já que trata do caso pernambucano apenas, sem deixar de mencionar, por outro lado, aspectos que são generalizáveis para o caso brasileiro. É uma virtude do autor ser cuidadoso com estes aspectos acerca da 'validade externa' de suas conclusões.

Além disso, é muito bom quando ver um autor, principalmente da Sociologia, criticar o apressado uso de conclusões derivadas de estudos meramente qualitativos para a gestão, reforçando a tese de que qualquer problema social não pode prescindir de análises quantitativas.

Com texto fluido e fazendo uso de conceitos econômicos ao longo do livro, trata-se de excelente opção de leitura complementar em diversas disciplinas de Economia.
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