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500 PRINCIPAIS AVALIADORES
11 de maio de 2018
Me furtarei de comentar, diretamente, o romance "A Morte em Veneza", pois já o fiz e pode ser acessado em meu perfil.

Tratarei, então, de tentar esclarecer o tema subjacente à obra de Mann, cujo poder ideológico transpassa a linguagem romântica e nos atinge por meio da mais pura e sólida filosofia, relacionando ambos os contos e, inclusive, a vida do próprio escritor.

Na novela de nome Tonio Kröger, Mann descreve com delicada singeleza, a dicotomia da mente perturbada de um menino de nome homônimo à obra, cujo crescimento e amadurecimento intelectual a percorre. No decorrer da novela, descobrimos o que compreende essa dicotomia que o dilacera por dentro, a decisão entre espiritualidade e vida. Entende-se espiritualidade por aquele indivíduo que vive no mundo inteligível, como idealizado por Platão, isto é, a perfeição das puras ideias e construtos artísticos bem-delimitados, dos enlevos espirituais ou inspirações, daquela fugaz emoção e da capacidade perscrutadora aguçada; é nisso que para Mann reside, talvez, a morte, pois cria-se um distânciamento com a vida em favor do mundo inteligível, onde as pessoas de características comuns são vistas como ordinárias e previsíveis. Para vida, Mann a vê em seus objetos de desejo - Hans Hansen e Ingeborg Holm - , que não possuem anseio algum para esse mundo inteligível, mas somente desejam o ordinário e comum, como o livro de fotos instantâneas de cavalos para o Hans Hansen, e a quadrilha (dança) para Ingeborg Holm. Inextricavelmente, Mann tenta incutir Hans Hansen a ler suas favoritas obras de literatura, como uma simbologia de levar ao ordinário o mundo inteligível, embora, com visível falha.

O que podemos observar é a tentativa amiúde em declarar um problema que o próprio Thomas Mann passara, declaração essa que permeou toda sua obra literária de considerações acerca de sua vida. Reflexo disso, por exemplo, são os interesses homoafetivos presentes em ambas as obras, fruto de uma discussão da possível homossexualidade de Mann. O autor também passou por essa dicotomia constante, entre o prazer do elevadíssimo mundo espiritual, e do outro lado, o mundo ordinário e enfadonho, do senso comum e do normativo. Vemos em "A Morte em Veneza" exatamente isso, a morte do artista, a morte daquele que se atrela à beleza e se esquece do mundo, aquele que se abstém do mundo secular para viver em função de uma vida espiritual, vemos morte para todos os lados, doença, e durante a degradação, o artista continua buscando o seu ideal perfeito de beleza. O que esperar disso? A morte da própria vida! A morte sem choro! Mas é em "A Montanha Mágica" que surge, mais ou menos, uma definição entre essa dicotomia espirito-vida, morte-ordinário, que não entrarei em mais detalhes nesta avaliação.

Para aqueles que gostam de produções cinematográficas de obras literárias, não deixem de assistir o filme de nome homônimo ao livro, produzido e dirigido por Luchino Visconti de 1971, uma reprodução belíssima e muito fiél à obra literária.
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