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10 de maio de 2018
Indicado ao Hugo Award de Melhor Romance em 2006, Guerra do Velho, o livro de estreia de John Scalzi, busca apresentar uma ficção científica militar que extrapola tecnologias mais atuais. A obra é uma clara referência à Tropas Estelares, seguindo a mesma estrutura e estilo semelhante a este antecessor. No entanto, enquanto o livro de Heinlein mostra um exército futurista utilizando armaduras de exoesqueleto para aumentar a capacidade dos soldados, Scalzi aborda os temas mais atuais da engenharia genética, trans-humanismo e do pós-humanismo. Também inspirado no livro de 59, Guerra do Velho utiliza a ambientação e os temas para abordar questões morais e filosóficas, como a velhice, os limites da humanidade, a vida militar e a estranheza das galáxias. Apesar da inspiração e de não ter levado o prêmio, como a obra de Heinlein, o trabalho de Scalzi se mostra sólido em sua proposta e em sua própria identidade.

O leitor acompanha a vida, ou o fim da vida, ou ainda, o início da nova vida, de John Perry, um viúvo de 75 que se alistou nas Forças Coloniais de Defesa, instituição galáctica que supostamente promove a segurança espacial e a conquista de novos recursos para os humanos que colonizarão novos planetas. O grupo recruta apenas velhos da idade de Perry, que mal sabem o que realmente será feito deles. No entanto, com a consciência de que irão guerrear contra inimigos da humanidade no espaço sideral, todos supõe que algo será feito com eles, que de alguma forma poderão viver mais do que viveriam na Terra. Suposição bastante correta, pois, após ingressar numa viagem sem retorno para as Forças Coloniais, a consciência de Perry e das outras Velharias é transferida para corpos biológicos criados para estarem muito acima da capacidade humana. Conforme se embrenha nas estranhas guerras espaciais, Perry começa a descobrir como a galáxia pode ser desoladora e niilista, além de perceber de que outras formas as Forças Coloniais de Defesa se utilizam do material humano para criar os seus soldados.

Scalzi consegue apresentar no livro muito bem as tecnologias que fazem as Forças Coloniais de Defesa “funcionarem”. A obra começa com John Perry ainda em sua cidade natal no interior dos Estados Unidos, para o momento de seu alistamento e das suas últimas experiências enquanto ser humano comum. Apesar destes segmentos não serem tão relevantes para a história do livro em si, eles são de suma-importância para mostrar como os idosos se relacionam com a ideia de se tornar um soldado.

Ninguém sabe, de fato, o processo que é utilizado nos novos (velhos) recrutas antes de comecem a combater. Na verdade, as pessoas sequer sabem se algum processo é realmente realizado. Os idosos que se alistam apenas presumem que alguma coisa precisa ser feita, já que no auge de seus 75 anos, não terão como guerrear contra qualquer espécie alienígena. E é baseado nesta esperança, de que poderão voltar a ter as capacidades físicas de um jovem e enganar a morte por mais algum tempo, que muitos dos velhos da velha Terra acabam entrando para o exército.

Contudo, talvez um dos maiores pecados do livro, quando os personagens conseguem seus novos corpos rejuvenescidos e biologicamente atualizados para a guerra, contando até mesmo com uma cor verde para facilitar alguns processos físicos, a ideia de que todos eles são velhos acaba sendo perdida um pouco. Tudo bem, a questão é relembrada de tempos em tempos, e existe a história pregressa dos personagens para – ocasionalmente – falar sobre suas vidas pregressas. Mas no fim das contas, não parece que aqueles soldados que estão lutando e morrendo realmente tem uma idade mental de 75 anos. Toda a problemática de John Perry e sua esposa, por exemplo, não mudaria muito caso ele tivesse de fato uns vinte e cinco anos e seu casamento breve tivesse acabado com a morte da mulher em um acidente. Um deslize que, fundamentalmente, não afeta muito a história, mas ainda assim notável em sua contradição.

Talvez a grande questão seja que o título do livro engana. No fim das contas, Guerra do Velho não é exatamente sobre velhice versus juventude. Mas sim sobre humanidade, sobre o que é ser humano e a percepção dos homens sobre o vasto universo. E neste ponto, o autor consegue acertar no tom, sempre levantando a dúvida de até quanto pode-se dizer que os soldados modificados ainda permanecem membros da raça humana, tantas são as modificações e melhorias que recebem para participar da guerra.

Apesar de não ser muito explorado, mas apenas mencionado de passagem, esta dúvida quanto à humanidade também aparece na relação das Forças Coloniais de Defesa e a Terra. Apesar das forças existirem para defender a raça humana, de forma alguma eles estão subordinados aos terrestres. De fato, o planeta Terra é quase uma espécie de refém para as Forças. Os governantes terráqueos sabem do papel que a organização é, supostamente, a única coisa que os protege dos terrores do universo, mas não tem noção alguma do que realmente os ex-velhos combatem e não tem acesso algum a qualquer tecnologia avançada utilizada pelas Forças Coloniais. Isso deixa a questão de até que ponto tal exército serve à humanidade, já que no fim das contas parecem no fundo funcionar como uma espécie de império superior – tanto tecnologicamente quanto fisicamente – que oferece proteção em troca de matéria prima para seus exércitos.

Mesmo levantando diversas questões tecnológicas e filosóficas, Guerra do Velho não é um livro denso, pelo contrário, ele é bem fácil de se ler. Com uma narrativa leve e linguagem bem simples, Scalzi vai apresentando a vida de Perry com fluidez. Ou talvez com rapidez. Não é que o estilo dele seja ruim, mas as descrições leves as vezes parecem quase insuficientes, e a velocidade com que a trama é apresentada não dá muita margem para o desenvolvimento de personagens que não sejam o protagonista.

Isso faz com que em alguns pontos a narrativa se torne fragmentada demais. As passagens de tempo entre os capítulos são bem grandes em algum momento, o que passa a sensação de que “algo” foi perdido. Isto, no entanto, dificilmente poderia ser evitado no modelo de história que o autor pretendeu. Sendo a proposta mostrar uma faixa de tempo da vida militar de Perry, indo de recruta a patentes de oficial, seria necessário uma obra muito maior ou muito mais relapsa caso os saltos temporais fossem diminuídos. Apesar de trazer algumas consequências, para a proposta do livro isto acaba sendo o ideal. Felizmente, se as descrições e storytelling de Scalzi não são impressionantes, os diálogos que ele cria são muito bons, sendo ligeiramente prejudicados pela pouca caracterização dos personagens, mas ainda assim muito bem escritos e efetivos.

Apesar de ser uma obra simples, Guerra do Velho traz muito mais do que aparenta a olhos desatentos. Sua linguagem e narrativa econômica pode a primeira vista fazer com que a obra pareça por demais trivial. No entanto, o livro consegue tirar ideias e ponderações morais e filosóficas das poucas palavras que utiliza. Para quem quer apenas ler uma história de guerra, o livro traz tudo o que é necessário, mas assim como outras boas obras que também trata deste tema, Guerra do Velho é muito mais do que momentos de ação e soldados heroicos. Excelente para quem quer algo leve e para quem está se iniciando na ficção científica, e uma boa leitura para os veteranos no gênero.
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